sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Soberania, não sujeição!

Em 2003, logo após a posse do ex-presidente Lula da Silva, muitos brasileiros acordaram surpreendidos com uma estrela partidária ornamentando os jardins do palácio Alvorada. Naquele ato anunciava-se o início de uma nova era, com reflexos inexoráveis em nossa política externa: a supremacia da ideologia partidária, sobre a política de Estado brasileira.

Não causa surpresa, portanto, a atitude de nosso governo no recente episódio da transferência para o Brasil do senador boliviano, Roger Pinto Molina, depois de 445 dias de asilo em nossa embaixada em La Paz.

O diplomata Eduardo Saboia falou da existência de um acordo tácito entre o Brasil e a Bolívia, para manter o senador asilado na embaixada, enquanto as autoridades dissimulavam uma negociação, que na prática não existia. Saboia diz estar documentado com e-mail’s que comprovam essa dissimulação.

As mesmas autoridades agora não medem esforços para desclassificar o diplomata Eduardo Saboia. Mas, os riscos da operação de resgate e a quebra na hierarquia do Itamaraty não podem ser maiores que os gestos de humanidade e coragem do ato empreendido por nosso diplomata. Ele só merece elogios, por não se submeter ao “ideologismo” político.

Neste quadro, a presidente Dilma Rousseff em nada se enleva ao contestar o diplomata Eduardo Saboia. Se não se compara as condições de vida de Molina na embaixada brasileira, com as das prisões do DOI-Codi na época da ditadura, tal como disse Saboia, também não se pode dizer que ambas as condições são “tão distante quanto o céu do inferno”, da forma como falou a presidente.

A realidade é que o senador Molina não vivia em um paraíso, trancafiado em um quarto da embaixada brasileira em La Paz como prisioneiro, sem banho de sol, privado do direito de ir e vir em seu próprio país. Muitos prisioneiros têm melhores condições de vida. Tanto isto é verdade, que os próprios médicos constataram uma depressão profunda no asilado, sugestiva para levá-lo ao suicídio.

O senador Roger Pinto Molina era líder da oposição venezuelana, razão pela qual vinha sendo perseguido pela esquerda populista e autoritária de Evo Morales. Seu “mal” foi denunciar a corrupção e o envolvimento de membros do governo com o narcotráfico. Então, no confronto, foi acusado de inúmeros crimes e condenado a um ano de prisão por corrupção. Por fim, não liberaram seu salvo-conduto para o exílio, como é tradição na diplomacia internacional em casos similares.

Estranho é que o Brasil tenha cruzado os braços, enquanto a saúde do senador se deteriorava. No caso dos boxeadores cubanos, foragidos durante os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007, nosso governo não tardou em encontrá-los e mandá-los imediatamente de volta a Cuba.

Outro caso emblemático foi o do comunista italiano Cesare Battisti, acusado em seu país de terrorismo e assassinato. Após a aprovação da extradição pelo Supremo Tribunal Federal – STF, Lula da Silva concedeu-lhe o asilo político nos últimos momentos de seu governo. 

Agora o presidente da Bolívia, Evo Morales, vem solicitar a repatriação do senador Molina. Se nossas autoridades cederem, da forma como foi condescendente com a expropriação dos ativos da Petrobras na Bolívia, mais uma vez estará apequenando o Brasil perante ao mundo.