quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Silêncio ao final do Império



A pá de prata e o carrinho de jacarandá foram manufaturados especialmente para aquele sábado. As principais autoridades do império, com todas as pompas, testificaram Irineu Evangelista de Souza entregar a pá a D. Pedro, para que ele pusesse a terra inaugural no carrinho. Era 29 de agosto de 1852, dia do início da construção da estrada de ferro que ligaria a Raiz da Serra a Petrópolis, primeira ferrovia do Brasil.
O mesmo gesto seria repetido por outras autoridades, até que Irineu convidou D. Pedro para que ele esvaziasse o carrinho, diante dos operários enfileirados. Em seu discurso Irineu havia enaltecido o trabalho, por isso era hora de puxar da plateia os “Viva D. Pedro II!...”, enquanto o imperador empurrava o carrinho, suando e esbaforindo.
Nesse período as iniciativas de Mauá propulsavam o Brasil imperial e escravocrata: Navios fabricados no estaleiro da Ponta da Areia integravam o interior pelos rios e nossa costa atlântica continental; Estradas de ferro começavam a cortar o país; O telégrafo submarino a estreitar as comunicações com o mundo; A indústria de transformação do ferro a ensejar novas indústrias. O Brasil conhecia a primeira iluminação a gás, o saneamento básico e o transporte coletivo através do bonde.
Todavia, à medida que os negócios de Irineu prosperavam, maiores eram os desafetos e os obstáculos. A posição de banqueiro e industrial, em meio a uma sociedade comercial e escravocrata, suscitava muitas desconfianças, inclusive do próprio governo imperial. Não menos relevante é que os negócios de Mauá também confrontavam com os interesses da Inglaterra, maior potencia industrial da época.
E não foram poucos os obstáculos, tal como o incêndio criminoso que destruiu o estaleiro da Ponta da Areia em junho de 1857 e reduziu a nada o setor de moldes, justamente a unidade que guardava a tecnologia.
Irineu ainda se esforçou para recuperar o estaleiro, mas foi surpreendido pela tarifa Silva Ferraz em 1860, que reduziu as taxas para importação de máquinas, ferramentas e ferragens, favorecendo à Inglaterra. Era a opção brasileira pela agricultura e uma pá de cal sobre a industrialização nascente.
O maior golpe, porém, foi na construção da Santos-Jundiaí. Irineu recebeu a concessão da ferrovia, mas vendeu suas ações e continuou financiando a obra, embora os maiores acionistas fossem também acionistas de um banco inglês concorrente. Estes firmaram um acordo com o construtor, também inglês, que resultou no pedido de falência deste último. Sobrou para o Banco de Mauá apenas uma massa falida. Um golpe, só possível porque Irineu estava no Uruguai, tentando evitar o conflito que viria a ser chamado de “Guerra do Paraguai”.
Com as finanças abaladas e sem ajuda do governo, Irineu foi obrigado a requerer moratória em 1875. Era o troco por salvar o governo imperial em momentos de crise. Agora o mesmo governo favorecia o banco inglês, seu maior adversário.
Tendo o nome vilipendiado pelos inimigos, Irineu dispôs de seus bens, inclusive os pessoais, para pagar os credores. E para defender a honra, publicou o livro “Exposição aos Credores e ao Público”, expondo as razões dos insucessos. Em 1884, após liquidar todas as dívidas recuperou a habilitação para os negócios.
“Fazer algum bem e trabalhar por meu país”, era o lema e assim viveu o Visconde e Barão de Mauá. Sua morte foi em 1889, praticamente junto com o fim do Império. Seu valor só seria reconhecido muito anos depois. Se D. Pedro arquitetou um troco pelo carrinho de jacarandá isto ninguém sabe. D.Pedro II levou consigo para o exílio e se apagou com a sua morte...