quinta-feira, 4 de julho de 2013

Marilena intuiu


Artigo do economista CLÓVIS PANZARINI, publicado no "Estadão" - UM ARTIGO QUE EU GOSTARIA DE TER ESCRITO.

Mísero vintém foi a gota dágua no copo dos malfeitos produzidos cotidianamente pelo despudor dos poderes constituídos. O governo não percebeu que em algum momento a farsa marqueteira perderia eficácia.
Cooptava a base da pirâmide social com Bolsa Família e o ápice, com "Bolsa BNDES", empanturrando os abastados com empréstimos a juros subsidiados pelo Tesouro. E a classe média surfava no pleno emprego. Na área política, cooptou - sabemos todos como - enorme base aliada, cujo comportamento ético ruborizaria qualquer petista modelo 1990. Esse aparente mar de tranquilidade alimentou a arrogância do governo, cuja única agenda era a perpetuação no poder.
A sociedade passou a ser tratada como mero detalhe, supostamente iludida por lindas imagens da propaganda oficial, que alardeava uma Suíça morena, enfeitada por sorrisos de crianças bem nutridas e olhares agradecidos de pacientes em hospitais-modelo. Porém, na outra ponta, tinha um povo padecendo em macas nos fétidos corredores hospitalares, espremido como gado em ônibus lotados e massacrado pela bandidagem fora de controle.
Enquanto a economia andava bem, engolia tudo. Mas, de repente, ela começou a patinar pela gestão incompetente que fez o Brasil perder a extraordinária janela de oportunidade aberta pela bonança internacional. Desprezando princípios elementares de economia, o governo imaginou que o País pudesse crescer indefinidamente via incentivo ao consumo (à demanda) - com juros baixos, crédito fácil, tarifas congeladas, etc. - e desincentivo ao investimento (que gera oferta). Tratava o investidor privado (o que produz os tais bens e serviços de consumo) como inimigo, impondo margens, tarifas e outros discursos com viés ideológico. De outro lado, os inexpressivos investimentos públicos - por falta de recursos e de gestão (no ano passado representaram ridículo 1,36% do PIB) - deixavam a infraestrutura arruinada. A responsabilidade fiscal foi relegada a segundo plano, com gastança desenfreada, de um lado - 39 ministérios, estádios, abjetas mordomias, amantes de autoridades viajando com dinheiro público, etc. -, e redução de impostos sobre bens de consumo, de outro.
As contas públicas se esgarçaram: nos últimos 12 meses os juros da dívida nos três níveis de governo consumiram 4,81% do PIB (14% da carga tributária), enquanto o superávit primário representou apenas 1,89% do PIB. Apesar da "contabilidade malandra" (o verdadeiro número é pior), faltaram 2,92% do PIB para pagar os juros.
A política econômica populista perdeu - se é que algum dia teve - completamente o rumo. As contas externas estão perigosamente entrando no vermelho (déficit nas transações correntes de US$ 39,6 bilhões até maio); a atividade econômica, patinando; a Bolsa de Valores, derretendo; as tarifas públicas, defasadas (quebraram a Petrobrás); e a inflação, escapando do controle, corroendo salários.
O consumidor/eleitor estava feliz, mas quando a conta não fecha a inflação acorda e faz barulho. Os tais R$ 0,20 foram o gatilho da explosão social que colocou a moçada nas ruas e pegou o governo no contrapé do constrangimento orçamentário. O passe livre em ônibus, metrô e trens, essa utopia infanto-juvenil, apenas na capital paulista custaria R$ 14 bilhões/ano (4,4 bilhões de bilhetes/ano a R$ 3,20 - só a Prefeitura gastaria 52% da receita tributária orçada para 2013). Em todo o País, o passe livre custaria quatro vezes mais. Haja aumento de impostos (mais passeatas!) para pagar a festa.
Os "pactos" anunciados pela presidente Dilma Rousseff parecem ter sido redigidos pelo marqueteiro de plantão. Um deles vincula à educação a receita de royalties sobre petróleo que ainda não existe (a produção massiva do pré-sal vai demorar, ainda, muitos carnavais). O da mobilidade urbana promete mais R$ 50 bilhões (um trem-bala!), sem explicitar fonte e sem sequer se constranger com a "briga" com outro "pacto", o da responsabilidade fiscal.
Marilena Chauí, ideóloga do PT, em evento do partido em maio deste ano, chamou a classe média brasileira de "violenta, fascista e ignorante". Vislumbrou que ela faria os poderosos tremerem. Especialmente os seus amigos de Brasília.
* CLÓVIS PANZARINI É ECONOMISTA E SÓCIO-DIRETOR DA CP CONSULTORES ASSOCIADOS LTDA. SITE: WWW.CPCONSULTORES.COM.BR.