terça-feira, 9 de julho de 2013

A viagem

Era por volta das 9h da manhã, quando a esquadra portuguesa despontou do Tejo. O esquadrão britânico que fazia o bloqueio à costa, sob o comando de sir Sidney Smith, estava preparado para a batalha, até que surge o Príncipe Real com o pavilhão da coroa portuguesa. A rainha D. Maria I e o príncipe regente D. João estavam a bordo. Dissipava-se, assim, qualquer intenção hostil de Portugal. A corte partia para o Brasil e a Convenção seria cumprida.

No mesmo dia 29 de novembro de 1807 o sir Sidney deixa a nau Hibernia e é recebido por D. João no Príncipe Real. Por seu relato “o príncipe disse tudo o que os sentimentos mais cordiais de gratidão para com a Grã-Bretanha e confiança nesta poderiam suscitar”, ao agradecer a escolta inglesa para a viagem.

D. João relutara em deixar seus servos. Se partia era para evitar a guerra e não ver o império luso humilhado. As tropas de Napoleão, sob o comando do General Junot, já avizinhavam Lisboa. Ali chegariam ao amanhecer do dia 30, ocupando de imediato os fortes da barra, para impedir a saída de outros navios.

A esquadra portuguesa, com 8 naus de linha, 3 brigues, 4 fragatas e 31 navios mercantes deixou o porto superlotada, com cerca de 15 mil pessoas: metade tripulante; a outra metade de fidalgos, funcionários da coroa e criados da casa real. Somente o Príncipe Real levava 1054 pessoas. Além disso, cada um dos navios levava tudo que foi possível carregar.

Os primeiros dias da viagem foram excessivamente extenuantes pelas tempestades, que dispersavam os navios. Daí o medo, o incômodo dos movimentos e da superlotação, o enjôo. Tudo isto fazia cada momento parecer eterno e infernal.

No dia 3 de dezembro o sir Sidney destaca 4 naus para escoltar a frota portuguesa, retornando à batalha na costa contra os franceses, enquanto a fragata Medusa vai à frente, por ordem de D. João, para avisar no Rio de Janeiro que a corte estava a caminho.

Porém, no dia 9, o Príncipe Real, o Afonso de Albuquerque, que transportava D. Carlota Joaquina, e as fragatas Minerva e Urânia, se separaram da nau inglesa Bedford, devido a pouca visibilidade. O reencontro só aconteceria no dia 15, quando o capitão Walker relata ter visitado D. João, prestando “toda atenção possível”, pois naquele momento recaia sobre ele a responsabilidade da Convenção.

No dia 17 comemorou-se o aniversário de D. Maria I. Salvas de canhão romperam a madrugada, sendo repetidas ao meio-dia e à tarde. O capitão WalKer, comandante da Bedford, manda carregar as velas e os fuzileiros apresentarem armas, enquanto dispara uma salva de tiros em homenagem à rainha.

D. Maria I relutara em ir a bordo, com problemas mentais e extrema melancolia, agravadas pelas mortes do marido, D. Pedro III (1786), e do filho, o príncipe herdeiro D. José (1788), aos 27 anos. Dizia ver seu pai, D. José I, calcinado e cumprindo pena no inferno, por permitir o Marques de Pombal expulsar os jesuítas do território português.

Na proximidade do natal os cinco navios agrupados chegaram à região do equador e entram na zona de calmaria, onde romperam 1808. Nesta etapa, os navios bastante castigados pelas tempestades e insalubres, pelo excesso de pessoas, mal conseguiam avançar. Então, D. João decide aportar em Salvador, pela exaustão.

O alento chega no dia 17 de janeiro, quando o brigue Trez-Corações, carregado de frutas, verduras e legumes, encontra a frota real. O Medusa informara da passagem da família real pela costa de Recife.

No dia 22, após 54 dias no mar, D. João aporta em Salvador onde assina a Carta Régia abrindo os portos às nações amigas. Iniciava-se ali o grito que decretaria a independência do Brasil.

Os demais navios aportarem em pontos distintos da costa brasileira, mas depois todos singraram rumo ao Rio de Janeiro.