sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Buscando o rumo com a luneta

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, depois de comentar sobre a sua satisfação com o resultado das urnas, afirmou categórico “que isso mostra que a população está aprovando a política que estamos praticando”, referindo-se à política econômica do atual governo, sob o seu comando e da presidente Dilma Rousseff. Não é de admirar essa declaração do ministro, pois ela é tal qual as suas previsões, sempre exageradas e muito distantes do que comprova a realidade.

O que mostrou o resultado das urnas é justamente o contrário, uma vez que quase a metade dos brasileiros votou no candidato da oposição. Mas se acrescentarmos os eleitores que não tiveram interesse em escolher um candidato, a insatisfação será maior ainda, já que mais de 60% dos 137,6 milhões de eleitores não votaram na presidente Dilma Rousseff. E no bojo dos clamores por mudanças está implícito o descontentamento de muitos brasileiros com os rumos da economia.

Uma das características singulares do governo petista é não reconhecer a vulnerabilidade de seus feitos. Para eles tudo está perfeito, daí a aversão às críticas. Entretanto, a situação real da nossa economia é muito diferente do colorido pintado pelo marqueteiro João Santana durante a campanha política e do que tem dito o ministro Mantega. É isto o que mostram os indicadores.

Quando a questão é crescimento econômico, por exemplo, este ano estaremos na rabeira do mundo. Segundo projeções do mercado financeiro e do Fundo Monetário Internacional, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro não crescerá mais que 0,3%. Isto acontecendo, a média do crescimento do PIB durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff será inferior a 1,75% ao ano, muito menor do que a média histórica do Brasil, que é de 4,4% ao ano. Portanto, um fracasso!

Em nossa história republicana somente dois governos tiveram desempenho pior em seu respectivo período de governo: Floriano Peixoto (de 1891 a 1894), com queda no PIB de 7,5%, e Fernando Collor de Mello (de 1990 a 1992), com queda no PIB de 1,3%.

Outro indicador que demonstra a deterioração da nossa economia é o resultado das contas externas. No último mês de setembro, o Brasil registrou um déficit de US$ 7,9 bilhões, o maior da série histórica desde o ano de 1947. Neste ano o déficit resultante das trocas comerciais e de serviços com o exterior aumentou em 186%, com relação ao mesmo período do ano passado. Nos últimos doze meses já representa um rombo de 3,7% do PIB.

Um dos problemas é a queda nos preços de nossas commodities agrícolas e minerais, tal como tem dito o ministro Mantega. Porém, fatores tais como a baixa produtividade e competitividade de nossas empresas, a precariedade da educação e da infraestrutura, a alta carga tributária e a própria confiança na economia - que amedronta os investimentos nas áreas produtivas - vão deixando um rastro de estragos difíceis de serem apagados.

Temos ainda uma inflação acima do teto da meta (6,5%), déficit nas contas correntes (estimado para este ano em US$ 81,5 bilhões), dívidas interna e externa crescentes - que elevaram a dívida bruta do setor público do Brasil no último mês de setembro, de acordo com o Banco Central, para cerca de 60,2% do PIB, ou seja, R$ 3,03 trilhões – uma das maiores do mundo. Com exceção das reservas de capital e do emprego, os demais indicadores são péssimos, o que evidencia uma má condução da economia.

Também, o aparelhamento do Estado, a corrupção desenfreada nos órgãos de governo, fundos de pensão e nas empresas públicas, a gestão politizada dos bancos públicos e a malfadada contabilidade criativa continuam suscitando enormes desconfianças no mercado.


Pelo conjunto da obra não faltam razões para a saída de Mantega. Resta agora acompanhar o que fará a presidente Dilma Rousseff em seu segundo mandato. Mas, de uma coisa é certa: a presidente não poderá continuar a dizer “que não sabia de nada”, pois o presidente da República é sempre muito bem informado e só não age quando não quer ou por incompetência.