sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Fisiologismo da vergonha


A ONG Transparência Brasil divulgou esta semana, que quase um terço dos senadores e deputados federais brasileiros tem sentença condenatória. Um dado desalentador, mas que reflete a realidade do nosso parlamento. Não são poucas as comprovações que a Câmara dos Deputados e o Senado Federal têm dado à nação, de que se encontram distante de cumprir com fidelidade as suas funções. Sempre prevalecem as mazelas, ficando em segundo plano as questões maiores.
Recentemente, vimos o deputado Natan Denadon (ex-PMDB-RO) ser mantido por seus pares na Câmara dos Deputados, depois de condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e preso, por formação de quadrilha e desvio de vultosa soma de recursos públicos, quando exercia a presidência da Assembléia Legislativa de seu estado. Uma decisão vergonhosa para o parlamento, por admitir o exercício de mandato de um criminoso, preso em uma penitenciária.
Talvez em nenhuma outra nação haja fato similar, por mais subdesenvolvida que ela seja. Tal decisão é um escárnio com o país. Um desrespeito ao próprio parlamento, às instituições e à população, que paga os impostos e as contribuições para a manutenção do serviço público. Também denigre a imagem do Brasil no mundo e desacredita ainda mais a classe política. Portanto, é uma vergonha nacional, realizada com o cinismo do voto secreto.
E isto é só um pequeno exemplo. Mas, exemplos não faltam: escorrem pelos ralos e ladrões da Câmara dos Deputados e do Senado.
Pelo levantamento da Transparência Brasil, o parlamento brasileiro tem hoje 190 deputados e senadores condenados pela Justiça ou Tribunais de Contas.  Estão distribuídos, por partido político, pela seguinte ordem: 36 parlamentares são do PMDB, 28 do PT, 22 do PSDB, 16 do PR, 14 do PP, 14 do DEM, 12 do PSB, 10 do PDT, nove do PTB e o restante (29) distribuído pelos demais partidos.
Embora a grande maioria dos condenados faça parte da base de sustentação do governo, não se pode generalizar e dizer que há melhores ou piores nesse balaio. A Câmara dos Deputados e o Senado Federal estão contaminados. Tanto pela situação, como pela oposição.
Assim, está corretíssima a afirmação de Claudio Weber Abramo, diretor executivo da Transparência Brasil, de que “essas condenações confirmam uma avaliação negativa da composição do Congresso”. Faltou apenas dizer, que a permanência desses parlamentares, compromete as próprias decisões tomadas pelo Congresso Nacional.
Por isto, raramente as decisões vão de encontro ao aperfeiçoamento das leis. A própria reforma política, tão necessária à nação, é sempre protelada. A realidade é que não há vontade em realizar qualquer reforma. Os remendos que sempre são feitos, conforme o recentemente aprovado pelo Senado Federal, chamado de “minirreforma”, tem sempre por objetivo afrouxar a lei e favorecer os candidatos.
Lamentável, porque temos um dos parlamentos mais caros do mundo, com excesso de funcionalismo e mordomias. Para piorar a situação, não se contam nos dedos de uma única mão os partidos políticos que seguem alguma linha doutrinária; que têm diretrizes, ideologias e propostas de governo. A maioria prefere ficar atrelada às benesses do executivo, que o caminho nobre da independência.
Atualmente já são 32 partidos políticos. Somente nesta semana, o TSE autorizou mais dois: o Partido Republicano da Ordem Social (PROS) e o Solidariedade. Mas, brevemente serão 34. Quase 50 deputados e senadores já estão em movimentação para o troca-troca de partido. Haja fisiologismo!
Até a Lei “Ficha Limpa”, de iniciativa popular, eles sempre conseguem burlar. Partido político é bom, faz bem à democracia. Mas, imperativamente, que eles tenham princípios.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Macunaíma, reproduzindo nossos “heróis”

Mais uma vez o ex-ministro da Casa Civil e ex-presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), José Dirceu, vem inflamar os militantes ao jurar inocência, mesmo condenado pelo Supremo Tribunal Federal – STF, por uma sucessão de crimes. O instrumento escolhido foi a Fundação Perseu Abramo, do PT, que transmitiu a entrevista na última terça-feira em seu site, para difusão nos principais meios de comunicação do país.
Uma das expertises de Dirceu é saber se comunicar com as massas de seu partido. Ele sabe dizer, como poucos, o que elas querem ouvir. Sabe também que elas propagarão na mesma linguagem, com fidelidade e sem questionamento, as estratégias orquestradas. Não importa se essas estratégias preservem, ou não, os valores democráticos e a ética. Acima de tudo e de todos está o partido e os seus.
Naquela entrevista Dirceu diz-se “o principal alvo da inveja de setores da elite desse país, que não se conforma com a liderança do Lula no mundo e a vitória de Dilma”. Completa vitimando-se da “mágoa, inveja e ódio disseminados em parte da sociedade”.
Dirceu, entretanto, não nomina de qual elite ele é vítima. Da política, certamente não é. Dessa elite ele mesmo faz parte, tal como o ex-presidente Lula da Silva, a presidente Dilma Rousseff e tantos outros de seus partidários. Nela incluem-se os “cumpanheiros” José Sarney, Renan Calheiros, Paulo Maluf, Valdemar Costa Neto, Jader Barbalho, Carlos Lupi, entre os políticos dos partidos aliados ao governo petista. Portanto, essa parte da elite também não pode ser.
Se a elite a que Dirceu se refere for a empresarial, da mesma maneira não há fundamento na afirmação. A maioria dos empresários, inclusive o ex-bilionário EiKe Batista, é aliada incondicional do governo. “Nunca antes na história deste país” ela foi tão beneficiada com empréstimos do BNDES, distribuídos com dinheiro subsidiado pelo povo brasileiro.
Quanto à “mágoa, inveja e ódio disseminados em parte da sociedade”, até aqui ninguém viu, durante uma década de governo petista, as ruas e avenidas esbravejarem “FORA LULA!”, “FORA DILMA!”, da forma ostensiva como vimos no passado o “FORA FHC!”. A sociedade brasileira aceitou o governo petista, por eleito democraticamente. As críticas são manifestações democráticas, das quais qualquer governo deve estar afeito.  
Entretanto, muda-se o lado do disco, mas o discurso não muda: O culpado é sempre a “elite maldita”; a oposição, que nem durante o período da ditadura militar foi tão vilipendiada e fraca; a imprensa “golpista”, que peca por denunciar os malfeitos, os desmandos e a corrupção; a direita brasileira “que tem complexo de vira-lata” (nas palavras de Dirceu), mas que continua servida e servindo ao governo petista.
José Dirceu mais uma vez fez-se alvo atacando. Jamais conceberá publicamente que o MENSALÃO existiu; que há um conjunto robusto de provas e testemunhas, porque dissimula em proveito próprio e do partido.  Delatar um malfeito é um crime imperdoável na sua corrente política. Vale tudo, menos dizer a verdade. Vale, inclusive, aparelhar as mais nobres instituições do país, da forma como fizeram com a nossa Suprema Corte.
Mas, na realidade, Dirceu lamenta encenando para a platéia. Ele sabe que no Brasil há sempre um meio da elite procrastinar o processo, mesmo quando é condenada. Sabe também que a formação de quadrilha é um crime que não atinge os colarinhos brancos. Sempre há um jeitinho! Não importa se para isto o STF seja desmoralizado.
Assim, lá do túmulo onde está o escritor Mário de Andrade, ele olha para o Brasil assustado. Sua criação MACUNAÍMA está reproduzindo nossos “heróis”.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Mais Médicos. Menos dignidade humana.


Ninguém em sã consciência pode ser contrário a contratação de médicos para as regiões carentes. Muitas comunidades não têm sequer um único médico para suprir a atenção básica da saúde. Necessitamos principalmente de generalistas, de forma que a contratação de profissionais não brasileiros é uma estratégia que não pode ser menosprezada, a exemplo do que acontece em outros países.
Contudo, o programa “Mais Médico” tem suscitado inúmeras polêmicas. Primeiro, pela forma autoritária e sem transparência como o governo federal tem conduzido o programa, sem debate no parlamento e participação dos órgãos representativos da classe; segundo, pelo viés ideológico, passando por cima das leis e das tradições históricas do nosso país.     
Começando por esta última questão, chega a ser piada de mau gosto a vice-ministra da Saúde de Cuba, Márcia Cobas, dizer aos brasileiros que os cubanos chegam ao Brasil para uma “missão humanitária e de solidariedade entre os povos”. É triste, lamentável e até repulsivo ouvir isto! A “solidariedade” é o fim econômico, haja vista que a maior parte dos recursos será apropriada pelo governo cubano, como uma espécie de subsídio.
A fala de Maria Cobas, consecutivamente, nada mais é que propaganda do sistema político de seu país. Não à toa ela chegou a esse posto, condecorada pelos “grandes serviços prestados” à ditadura implantada e dirigida pelos irmãos Castros.
Cuba é uma das últimas ilhas do comunismo no mundo. Um sistema que auto-implodiu na Europa pelo totalitarismo, imposto por uma burguesia de Estado restritiva dos direitos humanos. Lá o cidadão é privado de pensar diferente do que lhe é imposto pelo regime. Se isto acontece é vigiado e perseguido, tal como a escritora Yoani Sanchéz. Daí o clamor por liberdade e rotineiras tentativas de fuga.
O médico cubano que chega ao Brasil não foge a essa regra. Ele vem exportado tal qual uma mercadoria, sem qualquer direito, nem mesmo de trazer a família, que fica retida. A maior parte do salário será apropriada pelo governo, o que Carl Marx (principal ideólogo do comunismo) define como “Mais Valia”, para justificar a exploração do trabalhador no sistema capitalismo. Por isto, a relação de trabalho do médico cubano será assemelhada ao próprio escravismo. Não é por outro motivo que os passaportes ficarão retidos na embaixada de Cuba.
O advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, adiantou que os cubanos “são pessoas que estão entrando no país, não como refugiados. São profissionais que têm de respeitar as regras do convênio com a Organização Pan-Americana da Saúde”. Disse, ainda, que nenhum médico terá direito a asilo político; que no caso de fuga “eles seriam devolvidos”.
E para evitar a fuga, todos eles foram muito bem selecionados. Além disso, serão vigiados por “coordenadores” de grupo, como na Bolívia e na Venezuela. Mas, se por acaso alguns desertarem do programa, não faltaram “capitães do mato” brasileiros, para caçá-los e repatriá-los para Cuba.  
Quanto ao aspecto do autoritarismo e da falta de transparência, basta citar esse pequeno trecho de matéria de Lígia Formente e Andreza Matais, publicada em “O Estado de São Paulo”:
Médicos cubanos recrutados para trabalhar no Brasil recebem aulas de português e informações sobre o SUS há pelo menos seis meses. Mesmo sem a formalização de um acordo, professores brasileiros, usando material didático do Mais Médico, viajam para diversas localidades de Cuba para iniciar a formação dos profissionais, em uma sinalização de que o governo há tempos trabalha com a meta de trazê-los para o país.
Claro! Tudo estava em surdina. E o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, falando que havia desistido de trazer os cubanos. Agora se vê com clareza que era tudo balela. O ministro só estava esperando a poeira baixar.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Gestão do marketing e da incompetência



A mobilização que sacode o Brasil pegou de surpresa a classe política. Até então, no pedestal do poder, eles mantinham a certeza de que poderiam fazer o que bem quisessem, como se não houvesse limites. As promessas de campanha já estavam esquecidas há muito tempo, desde o fechamento das urnas. Do mandato do povo sobrava apenas o discurso, por pura retórica. Tudo continuaria “como dantes no quartel de Abrantes”.
Foi, então, um grande susto para os políticos uma manifestação repentina e tão grande, logo no início da Copa das Confederações. Não é por outro motivo, que no primeiro instante quase todos desapareceram, assustados, sem compreender o estava acontecendo.
É que eles esperavam, pelo marketing político, que todos acreditavam no Brasil “perfeito”, sem problemas. Fazia tempo que o circo estava na praça e o pão na mesa. Certamente, o discurso recorrente já estaria moldado na cabeça de todos!
Um exemplo, entre outros que poderiam ser citados, é o caso da Petrobrás. Cansamos de ver Lula da Silva nas plataformas com as mãos sujas de petróleo, vendendo à nação a “solução” do pré-sal e anunciando o fim de nossos problemas. Hoje, com toda clareza, está nítida a utilização política daquela grande empresa brasileira.
Péssima gestão. Péssimos investimentos. Péssimos planos de negócios. Uma direção irresponsável e incompetente. Ficou o rastro, formado por imensos prejuízos ao país e aos acionistas minoritários. O valor da Companhia despencou no mercado, enquanto o Brasil perdia sua auto-suficiência de petróleo.
O ex-presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielle, é um caso típico da incompetência da década petista. Vivêssemos em um país mais sério, com bons valores consolidados, seria mais um caso de cadeia!
O que eles não imaginavam é o povo saturado, por horas e horas de idas e vindas ao trabalho. Pelas escolas de péssima qualidade e filas e filas do SUS. Que o povo estava cansado de tanto discurso. E endividado pelo crédito fácil, para incentivar o consumo.
O aumento no preço das passagens e a construção dos estádios no padrão FIFA, a preço de ouro, foram apenas a gota d’água. Assim, de pouco adiantará as soluções de palanque para acalmar as massas. Elas querem muito mais!   
Como disse Dora Kramer na quarta-feira, em sua coluna em “O Estado de São Paulo”: - Inaceitável é que o açodamento, no afã de autoridades de todos os níveis se mostrem atentas a um clamor que sempre ignoraram, resulte na aprovação de projetos e anúncios de medidas que levem a resultados opostos àquilo que a população saiu de casa para exigir: Estado organizado, presente, eficiente e decente.
Só que há ainda muitos políticos escondidos, sem querer mostrar a cara. É que guiados pelos marqueteiros, nessas horas os mais “espertos” (ou covardes?) se escondem. Preferem ficar descolados do evento, para preservar “a boa imagem” diante da opinião pública.
Então, que tenhamos muito cuidado, porque a UNE e a CUT já voltaram às ruas. Além do mais, há político esperto esperando apenas a hora para dar o bote.   

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Soberania, não sujeição!

Em 2003, logo após a posse do ex-presidente Lula da Silva, muitos brasileiros acordaram surpreendidos com uma estrela partidária ornamentando os jardins do palácio Alvorada. Naquele ato anunciava-se o início de uma nova era, com reflexos inexoráveis em nossa política externa: a supremacia da ideologia partidária, sobre a política de Estado brasileira.

Não causa surpresa, portanto, a atitude de nosso governo no recente episódio da transferência para o Brasil do senador boliviano, Roger Pinto Molina, depois de 445 dias de asilo em nossa embaixada em La Paz.

O diplomata Eduardo Saboia falou da existência de um acordo tácito entre o Brasil e a Bolívia, para manter o senador asilado na embaixada, enquanto as autoridades dissimulavam uma negociação, que na prática não existia. Saboia diz estar documentado com e-mail’s que comprovam essa dissimulação.

As mesmas autoridades agora não medem esforços para desclassificar o diplomata Eduardo Saboia. Mas, os riscos da operação de resgate e a quebra na hierarquia do Itamaraty não podem ser maiores que os gestos de humanidade e coragem do ato empreendido por nosso diplomata. Ele só merece elogios, por não se submeter ao “ideologismo” político.

Neste quadro, a presidente Dilma Rousseff em nada se enleva ao contestar o diplomata Eduardo Saboia. Se não se compara as condições de vida de Molina na embaixada brasileira, com as das prisões do DOI-Codi na época da ditadura, tal como disse Saboia, também não se pode dizer que ambas as condições são “tão distante quanto o céu do inferno”, da forma como falou a presidente.

A realidade é que o senador Molina não vivia em um paraíso, trancafiado em um quarto da embaixada brasileira em La Paz como prisioneiro, sem banho de sol, privado do direito de ir e vir em seu próprio país. Muitos prisioneiros têm melhores condições de vida. Tanto isto é verdade, que os próprios médicos constataram uma depressão profunda no asilado, sugestiva para levá-lo ao suicídio.

O senador Roger Pinto Molina era líder da oposição venezuelana, razão pela qual vinha sendo perseguido pela esquerda populista e autoritária de Evo Morales. Seu “mal” foi denunciar a corrupção e o envolvimento de membros do governo com o narcotráfico. Então, no confronto, foi acusado de inúmeros crimes e condenado a um ano de prisão por corrupção. Por fim, não liberaram seu salvo-conduto para o exílio, como é tradição na diplomacia internacional em casos similares.

Estranho é que o Brasil tenha cruzado os braços, enquanto a saúde do senador se deteriorava. No caso dos boxeadores cubanos, foragidos durante os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007, nosso governo não tardou em encontrá-los e mandá-los imediatamente de volta a Cuba.

Outro caso emblemático foi o do comunista italiano Cesare Battisti, acusado em seu país de terrorismo e assassinato. Após a aprovação da extradição pelo Supremo Tribunal Federal – STF, Lula da Silva concedeu-lhe o asilo político nos últimos momentos de seu governo. 

Agora o presidente da Bolívia, Evo Morales, vem solicitar a repatriação do senador Molina. Se nossas autoridades cederem, da forma como foi condescendente com a expropriação dos ativos da Petrobras na Bolívia, mais uma vez estará apequenando o Brasil perante ao mundo.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Uma Imperatriz despedaçada


O augúrio de D. Leopoldina começou a ser traçado com a chegada de Domitila de Castro do Canto e Melo ao Rio de Janeiro. O príncipe D. Pedro a conhecera em São Paulo, através do irmão, alferes Francisco de Castro, durante viagem para debelar os conflitos que instabilizavam aquela província, dias antes da independência.

Domitila casara-se aos 15 anos, com o alferes Feliciano de Mendonça, com quem teve três filhos. Aos 21 se separara, após ser espancada e esfaqueada. Segundo Feliciano, por “violação da honra”, pois a encontrara “resvalada aos pés de um fauno”, como dizia do coronel Francisco Lorena, que viria a manter relação com Domitila até seus 24 anos, quando ela conhece D. Pedro.

Domitila não tardou a seduzir o regente, pois o primeiro encontro íntimo foi quase imediato, em 29 de agosto de 1822. Também não tardaria a abalar o prestígio do imperador D. Pedro I e o Império nascente. Mas, as feridas mais profundas seriam dilaceradas na Imperatriz, D. Leopoldina, pela ascensão de Domitila sobre D. Pedro. 

Ainda em julho de 1823 D. Pedro I demite José Bonifácio, amigo e confidente de D. Leopoldina, que é forçado ao exílio. Compõe, então, um governo de portugueses. A Imperatriz vai ficando isolada, o que é agravado quando o imperador nomeia a concubina para Primeira Dama da Imperatriz, em abril de 1825, dando-lhe lugar de honra e o direito de acompanhar D. Leopoldina por toda parte.

Segundo Maria Graham, isto causou à Imperatriz “o mais odioso dos incômodos”, pois permitia que Domitila a acompanhasse, desde que ela saía dos seus aposentos. Mesmo assim, pelo amor a D. Pedro e aos filhos, a Imperatriz mantinha-se altiva, por considerar um dever suportar situações adversas. Não raras vezes, ainda era submetida a restrições financeiras e obrigada a recorrer a amigos, enquanto Domitila e os seus eram contemplados por ricos presentes, cargos e títulos honoríficos.

Em 12 de outubro de 1825, no aniversário do imperador, Domitila é elevada à Viscondessa de Castro; no seguinte, à Marquesa de Santos. Antes, porém, em maio de 1826, D. Pedro reconhece publicamente a paternidade de Isabel Maria, filha com Domitila, impondo sua convivência com os filhos legítimos. Um duro golpe, que deixa a imperatriz muitíssimo ressentida.

Outro golpe foi a viagem à Bahia, com o fim de arregimentar tropas para a Guerra da Cisplatina, entre fevereiro e março de 1826. Para o povo baiano foi um escândalo a forma de D. Pedro tratar a concubina, se hospedando no mesmo lugar que ela, em detrimento de D. Leopoldina e da filha Maria da Glória, que ficaram em local mais modesto.

Em decorrência de tantas adversidades a imperatriz entra em grande crise depressiva, que só termina com sua morte, aos 29 anos, em 11 de dezembro de 1826. Deixa cinco filhos: o mais novo, Pedro de Alcântara, com um ano, seria Imperador do Brasil; a mais velha, Maria da Glória, com 7, seria Rainha de Portugal.

Tudo começou no dia 20 de novembro, quando D. Pedro I lhe passaria a Regência, para uma viagem de inspeção às tropas, no sul do país. D. Leopoldina, grávida, se recusara a ser acompanhada por Domitila, o que deixou o imperador furioso, por não poder mostrar aos presentes a “normalidade” da sua vida conjugal.

Na carta derradeira à irmã Maria Luíza, ditada à Marquesa de Aguiar no dia 8 de dezembro, D. Leopoldina diz que D. Pedro “acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento, maltratando-me na presença daquela que é a causa de todas as minhas desgraças. Muito e muito tinha a dizer-te, mas faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa da minha morte”.

Se a Imperatriz morreu por septicemia puerperal após ser agredida por D. Pedro, não há provas. Do que há é que Domitila ainda tentou adentrar nos aposentos onde a Imperatriz agonizava, mas que foi impedida pela pronta ação dos que acompanhavam D. Leopoldina em sua agonia mortal.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Sua Excelência, Seu Vivinho


No último domingo bem de noitinha, lá pelas oito, todos procuravam por ele, preocupados, até que a filha, Conceição, resolveu perguntar aos vizinhos se havia algum jogo do Cachoeiro. Ele havia saído desde à uma da tarde, sem dizer a ninguém em casa aonde ia. Entretanto, não deixara de passar na casa da vizinha, com o seu ioiô escondido debaixo do casaco, dizendo ir disputar um campeonato no Shopping Sul.
Aquela era a pista que faltava. Realmente foi lá no Shopping Sul, por volta das nove, que ele foi encontrado. Estava terminando o campeonato, que por apenas uma manobra fora eliminado, creio que em quarto lugar.  Segurava em uma das mãos um certificado de participação; na outra, o prêmio da classificação: um ioiô novo. No peito, orgulhoso, uma medalha. Assim, com muita alegria, ele retornou para casa.

Tudo até seria normal se o Senhor Silvino Santana não tivesse os seus bem vividos 88 anos de idade. Contudo o “Seu Vivinho”, como ele é chamado, há muito tempo resolveu parar de envelhecer; não dá mais bola para idade. Como seu vizinho, sou testemunha!

Em nossa rua, no Baiminas, Seu Vivinho é muitíssimo estimado. Todos o consideram parte da própria família. Ele mesmo diz, emocionado, que além das crianças, muitos adolescentes e adultos o chamam por “Vovô Vivinho”. É que ele participa ativamente da vida da rua. Ora brincando com as crianças, ora compartilhando sua juventude com os adultos.

Além da habilidade com o ioiô, Seu Vivinho tem ainda uma destreza fabulosa com o manejo do pião, quer no aparo com a mão, ou no arremesso com a linha. A única coisa de que reclama da vida, por suas próprias palavras, é que “sempre faltou força nos dedos para jogar direito a bola de gude”.

Porém, Deus lhe recompensou dando-lhe agilidade nos dedos e um fabuloso ouvido, para realizar sua maior paixão, que é a de tocar flauta. A perfeição é tanta, que não há quem não goste! Seu repertório é muito bem selecionado: Tico-tico no fubá, Urubu Malandro, Na Glória, Vale Tudo, Meu pequeno Cachoeiro... Por isto, também é conhecido por “Seu Vivinho da Flauta”.

Com muito orgulho ele recorda ter tocado para o ex-governador Paulo Hartung, no aniversário do nosso atual prefeito, Carlos Casteglione, em inúmeros eventos, solando flauta ou na percussão, quando integrava a famosa orquestra do maestro José Nogueira.

Mas, de profissão era foguista. Em 1942 ingressou na extinta Estrada de Ferro Itapemirim. Colocava lenha na caldeira da Maria Fumaça, que fazia a linha Cachoeiro de Itapemirim -Marataízes. Eram quatro horas de ida, mais quatro horas de volta na boca da fornalha. Assim foi até 1968, quando a estrada de ferro foi extinta. Então, foi transferido para o Colégio Newton Braga, onde se aposentou em 1984.

Ainda menino participava da colheita de café junto à sua família, lá pelas roças do atual bairro São Geraldo. Naquela época também gostava de pescar piau, cascudo, robalo e tainha, que havia em abundância no rio Itapemirim.

(Agora, em segredo, conto apenas aos leitores e leitoras desta coluna: com seus 88 anos, Seu Vivinho ainda desperta o ciúme de sua zelosa esposa, Dona Nicinha, com que está casado mais de 60 anos).

Creio que daqui alguns anos, quando Seu Vivinho resolver a envelhecer, que ele não perderá a jovialidade.  Nem a simpatia, a alegria e o riso tão peculiares, que carrega por toda parte. Este sim deve ser chamado por Sua Excelência. Sua Excelência, Seu Vivinho.