segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A Sabinada – O Levante


Cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Noite de quinta-feira do dia 6 de novembro de 1837. O exaltado Francisco Sabino Vieira, ao lado de João Carneiro da Silva Rego, Manoel Gomes Pereira e mais dois militares revoltosos, entra no Forte de São Pedro. Todo o corpo da artilharia o esperava, inquieto. Chegara a hora da Bahia declarar a sua autonomia política e o Federalismo, não conquistados em tentativas anteriores.

A mobilização já contava com o maciço apoio da camada média urbana, incluindo um grande contingente de militares radicados na capital. A insatisfação era enorme e expandia-se por diversas parte do interior. A escassez de produtos básicos, a carestia e o recrutamento forçado para combater os farroupilhas no sul do Brasil eram problemas comuns de toda a Bahia. Daí a desilusão com a independência e com a corte no Rio de Janeiro, que emanava a imagem de substituir Portugal - O Rio de janeiro agora era visto com um fardo, preocupada apenas em carrear cada vez mais recursos da província, tal como se ela fosse agora sua colônia.

Todo esse descontentamento favorecia a difusão do movimento, corroborando com que as notícias da trama circulassem pela cidade sem qualquer parcimônia. O periódico “Novo Diário da Bahia”, editado por Sabino, ajudava a inflamar ainda mais os ânimos. As autoridades, todavia, teimavam em subestimar os acontecimentos. O comandante das armas, Luiz de França Pinto, por benevolente, não se furtava em defender cada uma das cabeças que conspiravam, dizendo confiar nelas. O presidente da província, Francisco de Souza Paraíso, por sua vez, ficava sempre solidário a ele. 

Então, quando essas autoridades tomam conhecimento da revolta, conforme nos conta o historiador Antônio Risério, em "Uma História da Cidade da Bahia", são obrigadas a passar a noite e madrugada concentrando soldados e marinheiros, cerca de 300 homens armados, na Praça da Piedade. Na hora H são pegas de surpresa. Em vez de obedecer ao comando de carregar armas, soldados jogam balas no chão. Passavam para o outro lado.

Assim, na impossibilidade de resistência, os partidários do império são compelidos a refugiarem-se na região do Recôncavo, de onde passam a organizar a reação, com o apoio da aristocracia rural baiana.  

Com o território livre, os revoltosos realizam na manhã do dia 7 uma sessão extraordinária na Câmara de Vereadores, onde decretam o desligamento de toda província “do governo denominado central do Rio de Janeiro”. A Bahia se autodenominava livre e independente. Para presidente, Francisco Sabino indicou Inocêncio da Rocha Galvão, refugiado nos Estados Unidos, depois de ser acusado de assassinar o presidente das armas em 1824; para vice-presidente foi escolhido João Carneiro da Silva Rego, que assumiu o governo provisório, pela ausência do primeiro. Coube a Sabino a Secretaria Geral de Governo.

No entanto, Francisco Sabino seria o líder de fato do movimento. A aparente função secundária decorria de seu temperamento violento e radical, bem como da suposta prática do homossexualismo, não aceito na época. Sabino ainda carregava nas costas o peso da morte de sua mulher, Joaquina Gonçalves, quando ela contava com apenas 25 anos, bem como do assassinato de dois de seus desafetos.  

Segundo o inquérito policial sobre a morte de Joaquina, consta no depoimento de seis testemunhas que Sabino a teria agredido, após ser encontrado por ela na rede “servindo-se de um homem preto como se fora mulher”, nas palavras de uma delas. Por outro lado, não deixava de ser um destacado intelectual da Cidade da Bahia, onde exercia a cátedra de professor de medicina e o jornalismo.

O início da Sabinada guardaria outra contradição: Na ata da assembléia realizada no dia 11 de novembro, acrescentou-se que a independência da Bahia seria até o príncipe D. Pedro completar a maioridade, para satisfazer os monarquistas. Porém, outro grupo dos líderes, entre eles Sabino, pregava a revolução Federalista e a fundação da República Bahiense.