sexta-feira, 22 de março de 2013

O banho do Lacerda

Há tempo, Cristina, minha esposa, vem pedindo para que eu pare de contar aos amigos sobre o banho do Lacerda. Diz que estou repetitivo e que está cansada de ouvir a mesma história. Então pergunto: - o que fazer se é grande a quantidade de amigos? Mas, como marido obediente que sou, só me resta a alternativa de me calar. Nada mais falarei sobre essa história!
 
 Porém, já que vou me calar, reservo-me o direito de escrever sobre o banho do Lacerda, para não perder essa história da memória. Assim, também poderei publicar. Quem sabe não tenha faltado algum amigo, que ainda não saiba o que viu a Laurinda?

Laurinda é da boa terra de Iriri. Desde pequena, aos nove anos, já trabalhava na cata do marisco. Nasceu às 7 horas da manhã, do dia 27 de abril de 1949, por parto normal com parteira, como ela mesma conta. Agora é uma exímia cozinheira de frutos do mar; sabe como ninguém temperar uma autêntica moqueca capixaba. Como ela é trabalhadeira, também acumula a função de caseira dos mineiros, vizinhos do Lacerda.

Acontece que o Lacerda adora tomar banho ao ar livre, na ducha do subsolo da sua casa. E o banho é igual ao de Adão, da mesma forma como veio ao mundo. Creio que também gosta de banhar-se olhando os pés de manjericão, de mexerica e o de figo, que dá apenas um figo por ano. Segundo ele, o figo é um presente especial para sua esposa Olguinha. Tem ainda a vista de coqueiros e árvores nativas.

Em uma reunião lá em casa, Laurinda falava de sua vocação para cantora e compositora. Já conhecia uma de suas músicas e o poema que ela compôs para o ex-prefeito do município de Anchieta, que ela leva inteirinho na memória. Aí fui cutucado pelas diabruras, e falei: - Laurinda, qualquer dia desses você vai pegar o Lacerda tomando banho de ducha pelado.

Ela sem titubear, respondeu: - Ah, eu vou pegar? Não! Estou cansada de ver! Claro que os amigos presentes caíram na gargalhada pela espontaneidade da Laurinda.

Assim, para esclarecer a situação, perguntei: - Mas, Laurinda, você não viu nada não, não é mesmo? Ela então respondeu, com toda convicção: - Vi, vi sim! Vi tudo! Lacerda toma banho assim... E passou a gesticular o modo como Lacerda toma banho, passando as mãos por todas as partes do corpo.

Olguinha, ainda rindo, não deixou de confirmar: - Ela viu sim! Ela viu sim! Está fazendo igualzinho. É como o Lacerda toma banho!

Mas, Lacerda jura que nunca tinha visto a Laurinda lhe olhando. É que o muro do vizinho é baixo e Laurinda tinha alguma fórmula de tornar-se invisível. Tinha, porque agora não tem mais.

Não tardou muito tempo, Lacerda passou no finalzinho da tarde dizendo que ia primeiro tomar banho e que já voltava. Só que passado alguns minutos ele voltou, do mesmo jeito que estava - ainda de sunga Nike e óculos Ray Ban. Então perguntei: - E aí Lacerda, você não ia tomar banho? O motivo do retorno, repetindo as próprias palavras do Lacerda: - É a Laurinda. Ela estava lá. Disse que eu podia tomar banho, que ela já estava indo embora.

Creio que Laurinda ficou profundamente arrependida de ter contado que viu o banho do Lacerda, pois desde então ela não consegue não ser vista. Agora, Lacerda toma conta e por várias vezes tem adiado seu horário de banho.

sexta-feira, 15 de março de 2013

As “muvucas” do Lacerda


O amigo Lacerda é sem par. Não há outro João Coelho parecido! Sua popularidade é tanta, que em todo lugar sempre encontra um amigo. Pode ser em Friburgo, São Luiz do Maranhão, Alto Caparaó, Natal ou Porto Seguro. Nas caminhadas de Iriri a Piúma é: Ei Lacerda, olá Lacerda, “cumé” que tá Lacerda, Lacerda... Só dá Lacerda na ida e na volta!
Para nossa sorte, sua esposa Olguinha é muitíssimo amiga nossa – minha, como da Cristina e de toda confraria dos amigos da parte de cima da Padre Anchieta e adjacências, em Iriri. Mas, mesmo com toda popularidade, Lacerda jamais será político. Olguinha mesmo já disse que Lacerda não terá o voto dela, justificando que ele não será um bom político.
Só que Olguinha se esqueceu, de que Lacerda entende tudo da Lei 8.666, que é doutor em preparação de Edital de Licitação, e que ninguém o engana quando o assunto é uma concorrência pública. Além de tudo é honesto! Por isto, tenho absoluta certeza, que ele seria um vereador ou deputado exemplar; desses que sabem fiscalizar e cumprir a função de legislar, em benefício da boa gestão pública.
Lacerda sempre tem seu roteiro do dia bem definido. É tudo muito bem programado, para não perder um segundo de vida. Há quinze dias fomos surpreendidos com sua chegada a Cachoeiro, com a Olguinha, numa quinta-feira; exclusivamente para comer a língua de boi do “Bom Gosto”- a melhor língua do mundo. Simplesmente comeu a língua com água, pela “Lei Seca”, e voltou logo em seguida para Iriri.
Cristina e meu filho Pedro foram encontrá-los. Quando chegaram em casa, disseram que Olguinha perguntou: - Lacerda, você vai comer a língua sozinho? (Porque ninguém gostava de língua). Então, Lacerda respondeu: Sozinho não Olguinha, com a alface! Ele sempre tem uma resposta para tudo!
Certa noite, Olguinha falou com Lacerda que não estava conseguindo dormir,  com sua tosse. Lacerda, então, prontamente emendou: - Olguinha, eu não tive tempo de tossir de dia, por isso é que tenho que tossir de noite.
Lacerda tem a minha idade, mas é do tipo mais jovial que conheço. Sempre de sunga, Nike e Ray Ban. Assim ele chegou à nossa varanda, com seu riso aberto e solto, quando eu tinha na mão meus comprimidos de Rosuvastatina, Bufferin e Atenolol. Espontaneamente falou: - Estou morto de inveja de você! E soltou aquela risada... Ofereci-lhe, então, os comprimidos, quando ele retrucou: - Obrigado! Tenha bom apetite!  
Triste que, uma semana depois, fomos surpreendidos com a repentina internação de Lacerda em uma UTI, em Vitória. Sorte que ele pediu a seu filho, Luizinho, que o levasse imediatamente para o hospital. Sentiu que estava enfartando!
Logo ele que pratica regularmente exercícios. Como enfartar com um corpo atlético, depois de uma caminhada? Ninguém poderia imaginar Lacerda enfartado! Felizmente, pelo pronto atendimento não houve sequelas, mas a “inveja” por tomar os remédios, certamente ele não terá mais.
Lacerda substituiu a inveja por seu lado romântico. Ele conta ter falado para Olguinha, que se tivesse que casar novamente a escolheria como esposa. E diz que ela respondeu: - Lacerda, eu vou pensar! É claro que Olguinha vai pensar, pelas “muvucas” que Lacerda apronta. Mas, indubitavelmente, casaria com Lacerda de novo.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Pão e circo


O melhor conceito que se pode ter de um bom governo é o de saber distinguir e priorizar aquilo que é mais importante e essencial para a população de um município, para o estado ou o país. Estamos hoje às vésperas de uma Copa do Mundo e das Olimpíadas que serão realizadas em 2016 no Rio de Janeiro. Duas das prioridades do Governo Federal e dos estados que estão envolvidos na organização desses eventos.
É importante, então, questionarmos se valera à pena para o Brasil, não só pela visibilidade que têm e do retorno que poderá trazer em publicidade e turismo. Mas, também, se realmente compensa gastar bilhões e bilhões de recursos, enquanto carecemos de investimentos em saúde, educação, segurança pública e infraestrutura, entre outras áreas prioritárias, para as quais sempre há deficiência de recursos.
Lógico que não podemos retroceder as decisões tomadas diante do mundo. Mas, analisar essas decisões de governo é uma questão de dever do cidadão, do cumprimento de sua cidadania. O que não devemos é ficarmos omissos.
Nesta semana o portal da revista “VEJA” publicou uma série de matérias muito esclarecedoras sobre os estádios que estão sendo construídos para a Copa do Mundo. A primeira delas titulada “prepara o bolso: os elefantes brancos estão à solta no país”, de Giancarlo Lepiani. Valerá à pena aos leitores conferirem essas matérias, que são riquíssimas, pela clareza e importância das informações.
O primeiro ponto que chama a atenção é o problema do custo de manutenção e preservação dos estádios. Muito alto e que consumirá, durante a vida útil prevista para cada uma das arenas, durante décadas, mais que o dobro do montante utilizado na construção. Estima-se um valor entre 27 e 33 bilhões de dólares.
Outro problema é com relação à utilização dessas arenas. Brasília, Cuiabá, Manaus e Natal têm campeonatos com inexpressiva média de público. Depois da Copa do Mundo fatalmente esses estádios ficarão ociosos, mas consumindo recursos públicos que poderiam ser muito melhor aplicados se colocados, por exemplo, na manutenção dos hospitais públicos nas cidades onde estão localizados.
Também, em cidades como Recife e Fortaleza, a utilização das novas arenas pelos clubes locais sairá mais caro que o uso dos estádios próprios, o que poderá inviabilizar todo esforço realizado sejam essas arenas privatizadas ou não.
Porém, metade das arenas construídas não deve ser privatizada, pela baixíssima perspectiva de retorno. Somente as construções das maiores cidades são atrativas, pela possibilidade do uso em grandes eventos, além das partidas de futebol. Neste grupo está o Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Salvador.  
Nas Copas do Mundo dos Estados Unidos, França e África do Sul, da forma como muito bem mostra a “VEJA”, foram utilizados somente nove estádios. Por certeza, como diz a matéria, “é de costume no país, culpa da política, que sobrepujou o bom senso e colocou o gasto perdulário de dinheiro público em segundo plano. Houve esforço de sobra para contemplar aliados e atender a interesses muito distantes do futebol.
Quanto às obras estruturais, necessárias à mobilização urbana, que deveria ser o maior legado desses eventos, conforme o caderno de encargos assumidos, excetuando o Rio de Janeiro e Belo Horizonte, muitos projetos já foram cancelados, quer por falta de recursos, licitação fraudulenta, ou tempo hábil para conclusão. Na questão dos aeroportos, que chega a ser vergonhosa para o país, poderemos ter a continuidade da construção dos já famosos “puxadinhos”.
A única certeza que fica é a de que até lá teremos o Bolsa Família e todas as arenas construídas. E, por certo, como teremos pão e circo, nossa população se sentirá satisfeita com a saúde, educação, segurança pública e infraestrutura que temos. Infelizmente, esta é a nossa realidade.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Indicadores da nossa burrice

Há tempo os políticos aprenderam a usar as pesquisas qualitativas para nortear seus discursos nos períodos eleitorais. Por isto a saúde, a educação  e a segurança pública são sempre “prioridades” nas campanhas políticas, seja para os cargos legislativos ou executivos.
Entende-se que muitos prefeitos e governadores depois de eleitos tenham dificuldades para cumprirem suas promessas, pois a distribuição da arrecadação no Brasil é extremamente perversa, pela concentração no Governo Federal. Mas, não cabe a vereadores ou a deputados a gestão da saúde, da educação ou da segurança pública, haja vista que suas funções são as de legislar e fiscalizar.
Infelizmente, pelo baixo nível de educação e poder crítico, poucos no Brasil sabem distinguir com clareza as competências do executivo e do legislativo. Assim, os discursos de campanha, sobretudo para os cargos de vereador e deputado, ganham um enfoque de oportunismo, pela pouca eficácia que têm para atender o anseio público.
 No entanto, tanto as Câmaras de Vereadores, as Assembléias Legislativas e a Câmara dos Deputados têm uma arma poderosa para mudar a realidade, que é o Orçamento Público. Mas, alheios a essa arma, nossos legisladores sempre preferiram subjugarem-se ao executivo, em troca de benesses e favores, a cumprirem com fidelidade suas funções.
Por isto, na maioria das vezes o orçamento é aprovado pelo legislativo da mesma forma como foi elaborado pelo executivo, sem qualquer discussão da locação das verbas.
Quando se fala então na função de fiscalizar, aí a coisa fica escandalosa, pois o que é regra é o parlamento, com pouquíssimas exceções, defender as mazelas do executivo, em todas as circunstâncias. Isto além de favorecer a utilização dos recursos de forma inapropriada, prejudica a avaliação crítica da população, que fica sem saber o que está certo ou errado, pela própria falta de informação.
 Esse círculo vicioso é uma das causas do descrédito atual das nossas casas legislativas.
 Vejam os leitores que até o momento o Orçamento para o ano de 2013 ainda não foi votado. Tudo porque o Congresso Nacional aguardava a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a prioridade da votação de 3 mil vetos da Presidência da República, ainda não apreciados pelo Congresso.
 Esses vetos estão acumulados há mais de 10 anos, simplesmente porque nossos legisladores preferem a omissão à exposição de derrubar um veto presidencial, que deveria ser natural em um regime democrático.
Lamentável é que não vemos progresso. A própria eleição de Renan Calheiros (PMDB-AL) para a presidência do Senado e de Henrique Eduardo Alves para a Câmara dos Deputados (PMDB-RN) é a garantia de que nada deverá mudar.
 Assim, a solução para os problemas da saúde, educação e segurança pública continuará em segundo plano.
 Não é ao acaso que temos uma das piores avaliações nos indicadores da qualidade da educação - uma das piores do mundo; uma saúde pública com investimentos muito menores do que em países pobres, e indicadores de criminalidade alarmantes.
 Tudo isto reflete no Índice de Desenvolvimento Humano, onde o Brasil ocupa a 84ª posição no mundo, de acordo com o Programa das Nações Unidas (Pnud). Contudo, há ainda aqueles que vendem a imagem de que hoje somos um país sem problemas.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Intolerância do atraso

Seria muito mais discreta a passagem pelo Brasil da blogueira e dissidente cubana Yoani Sánchez, não fossem as manifestações raivosas de militantes de setores mais radicais da esquerda. Lamentavelmente, o que tem tornado a visita da blogueira um destaque é a selvageria; a demonstração de ignorância e atraso, protagonizada por pessoas incapazes de viver ordeiramente em uma democracia.
A passagem de Yoani Sánchez pelo Brasil, chega a lembrar as agressões sofridas pelo governador Mário Covas (PSDB-SP) por essas mesmas correntes ideológicas, na época estimuladas por José Dirceu. Mário Covas já estava com um câncer no cérebro, que poucos meses depois o levaria à morte. Aquele ato de intolerância e indigno mostrou-nos até que ponto pode chegar o radicalismo e o desrespeito humano, como também à autoridade constituída pelo voto popular.
No caso da blogueira Yoani Sánchez não há razão alguma para esses protestos e agressões. O que ela pretende, é simplesmente mostrar ao mundo, as condições em que vive seu povo, oprimido pela falta de liberdade e de condições básicas de vida, devido à escassez de produtos de primeira necessidade e a carestia, além de poder lançar por aqui o seu livro.
Logicamente, só iria assistir às palestras proferidas por Yoani quem se interessasse pelo tema. Impedir o direito de informação é mais uma agressão, que não pode ser consentida.
Mas, como há gosto para tudo, há “autoridades” que preferem os modelos fechados e autoritários, nos moldes do sistema cubano. Essas gostariam de viver eternamente a expensas do Estado, razão pela qual abominam o sistema de direito, democrático e republicano.
Esse deve ser o caso do coordenador-geral de Novas Mídias da Secretaria-Geral da Presidência da República, Sr. Ricardo Poppi Martins, que recebeu um dossiê do corpo diplomático cubano, desqualificando Yoani. Ele também deve ter auxiliado o Sr. Rafael Hidalgo, conselheiro político da Embaixada de Cuba em Brasília, a fomentar a desqualificação da blogueira, haja vista a reunião realizada com militantes do PT, do PCdoB e integrantes da CUT, conforme revelado pela revista “VEJA”.
Segundo as próprias palavras de Yoani “não é um dossiê sobre os argumentos que apresento, ou que negue algo que escrevo em meu blog, mas um dossiê que trata de me matar eticamente e moralmente frente aos meus leitores. Não há possibilidade de um debate em uma polêmica quando o outro quer te destruir”.
Estranho é que até a chegada de Yoani ao Brasil não fossem tomadas quaisquer providências para que a sua segurança fosse garantida. Assim, literalmente, Yoani Sanchéz foi deixada livre aos cães.
Mesmo assim, Yoani dá a sua demonstração de grandeza quando fala: “Só penso que esse ódio é de pessoas que nunca leram meus textos e foi fomentado por terceiros. No entanto, a sensação final foi de vitória, apesar dos insultos e gritos. No fim do debate, havia argumentos de minha parte, e por parte deles só palavras de ódio”; ou quando diz “sou uma pessoa que usa palavras e não uso armas”.
Por todos os pronunciamentos e tudo que vi de Yoani Sánchez em sua viagem ao Brasil, juro aos leitores dessa coluna que me tornei mais um dos seus admiradores. Daqui para frente estarei acompanhando o seu blog e que comprarei o seu livro que está sendo lançado no Brasil. Farei sua leitura com o maior prazer!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Carnaval: do Entrudo à Escola de Samba


O carnaval chegou ao Brasil junto com a colonização portuguesa, com o nome de entrudo, justamente por marcar a entrada da Quaresma, que inicia o ano lunar do Cristianismo na Quarta-Feira de Cinzas. Desde o século V a Igreja Católica já comemorava essa data como um dia de festa – um “adeus à carne”, marcado por brincadeiras e muita diversão, que rapidamente se propagou por toda a Europa.
No Brasil, o entrudo passou a sofrer grandes modificações depois do século XVIII, sobretudo pelas influências de outras culturas, além da europeia. A brincadeira caseira, que consistia em jogar água de cheiro uns nos outros, chegou às ruas, ganhando um estilo rude e agressivo, com a utilização de água suja, tinturas, farinhas e até excremento, que não poupava àqueles que circulassem nas ruas.
Além da violência, há relatos de que as ruas do Rio de Janeiro, já naturalmente sujas pela carência de hábitos de higiene, ficavam enlameadas e com extremo mau cheiro, causando péssima impressão aos visitantes. Deste modo, o entrudo passou a ser reprimido pelas autoridades.
No final dos anos 30 do século XIX, a elite carioca começa a substituir o entrudo caseiro pela fantasia, inspirada nos bailes de máscaras de Paris e nas comemorações carnavalescas italianas. Passa, então, a desfilar em carruagens, percorrendo as ruas da cidade com destino aos clubes. Esta tradição evolui para o desfile organizado em grandes carros enfeitados, que deram origem às Grandes Sociedades.
Essas Grandes Sociedades ganham imensa popularidade utilizando do sarcasmo e humor. Por isto, passam a disputar o carnaval entre si, em desfiles que durariam por mais de um século.
Depois, no início dos anos 70 dos oitocentos, surgiu o Rancho Carnavalesco, com fantasias variadas e instrumentos musicais de corda e percussão. De origem mais popular, o Rancho utilizava elementos das tradições negras e das procissões religiosas, com seus pastores e pastoras, porta-bandeiras e mestre-salas, entre outros figurantes. A primeira marchinha do carnaval brasileiro, “Ô abre alas”, foi composta por Chiquinha Gonzaga especialmente para o rancho “Cordão Rosa Preta”, em 1899.
Já a Escola de Samba é uma manifestação autenticamente popular, nascida no Rio de Janeiro, que mescla a cultura predominantemente africana a elementos das Grandes Sociedades e dos Ranchos Carnavalescos. No entanto, o principal elemento é o próprio samba, que teve origem no Recôncavo Baiano - o “samba de roda”, introduzido na capital do império na segunda metade do século XIX.
A primeira Escola de Samba do Brasil foi a “Deixa Falar”, fundada no Rio de Janeiro em 18 de agosto de 1928 por um grupo de boêmios do bairro carioca do Estácio, sob a batuta de Ismael Silva, que teve a ideia de organizar um bloco inspirado no samba, com evoluções próprias.
Segundo estudiosos, o termo “Escola de Samba” surgiu porque a “Deixa Falar” fazia os seus ensaios ao lado de uma Escola Normal situada na rua do Estácio. Dai juntaram o nome “escola” ao “samba”.
Com o sucesso da “Deixa Falar” a Escola de Samba foi se proliferando por outros bairros. Então surgiram a “Estação Primeira”, que depois também passou a se chamar Mangueira, a “Cada Ano Sai Melhor”, a “Vizinha Faladeira”, a “Vai Como Pode” (atual Portela), entre inúmeras outras escolas, que foram crescendo e se modernizando.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

“Voz rouca das ruas”

Com o apoio maciço do Partido dos Trabalhadores (PT) às candidaturas de Renan Calheiros (PMDB-AL) e de Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) à presidência do Senado e da Câmara dos Deputados, respectivamente, fica praticamente definida a aliança entre esses dois partidos para as eleições majoritárias de 2014. Teremos, de novo, a dobradinha Dilma Rousseff (PT-RS) e Michel Temmer (PMDB-SP).
O maior interesse do Planalto na eleição do Senado e da Câmara é que a união entre o PT e o PMDB esteja bem consolidada, para a próxima eleição presidencial. Ambos os partidos já estão estruturados em todo Brasil, e juntos terão forças para uma grande campanha. Mesmo no Nordeste, onde Eduardo Campos – governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB - tem ampla penetração e pode ser uma ameaça.
O Nordeste é o que mais preocupa o governo, pois é a região que garantiu as vitórias do PT nas três últimas eleições presidenciais, e que pode definir um segundo turno.
Neste momento pouco importa ao governo que Renan Calheiros tenha a ficha manchada e suja. O desgaste do PT será momentâneo e passageiro, pois, certamente, eles têm certeza de que todo brasileiro tem memória curta. Por isto, já nem levam em conta os desgastes do MENSALÃO e da sequência de escândalos do governo. Está aí a imagem da presidente Dilma sem qualquer arranhão, conforme mostram as pesquisas.
Por esta razão, a bancada do PT não tem qualquer constrangimento em reconduzir Calheiros à presidência do Senado. Apenas tergiversa, simulando ser a escolha de competência exclusiva do PMDB, conforme fez Wellington Dias (PT-PI), ao dizer que “o PT está 100% fechado com a decisão que o PMDB tomar, seja qual for o indicado”. Mas, é lógico, que Renan Calheiros é o escolhido, tanto do Planalto como do Alvorada.
Assim, a presidente Dilma vai atuando às sombras, descolada. Ela sabe que “não pode e não deve” misturar-se aos políticos. Sua alta popularidade é o que lhe importa; tanto faz um Congresso Nacional com a imagem estraçalhada, desde que lhe tenha fidelidade. 
Contudo, o que é bom para o PT e o PMDB, e também para a representante maior da nação, pode não ser o melhor para o Brasil e os brasileiros.
Nesta semana, a grande imprensa de norte ao sul do Brasil, baseada em matéria de “O Estado de São Paulo”, mostrou o escândalo da utilização do dinheiro publico pelo Senado nos últimos 10 anos de administração peemedebista; desde o início da era Lula da Silva, em 2003.
Segundo o “Estadão” as administrações de José Sarney, Renan Calheiros e Garibaldi Alves Filho aumentaram os gastos do Senado com pessoal em 57%; o número de cargos em comissão - aqueles que não necessitam de concurso público – aumentou em 741%. Em 2003 a folha de salários, com valores corrigidos, era de um pouco mais de R$ 1,00 bilhão/ano; atualmente chega a R$ 1,83 bilhão/ano. 
Hoje, considerando que o Senado emprega cerca de 10.000 servidores, temos, então, um salário médio de aproximadamente R$ 14.100,00/mês, uma realidade bastante distinta da do trabalhador brasileiro.
Mas, para a base do governo pouco importa o abaixo assinado com mais de 180.000 assinaturas na internet, contra o retorno de Calheiros à presidência do Senado da República; nem outro tipo de pressão popular.
Quanto à denúncia feita pelo procurador-geral de República ao Supremo Tribunal Federal contra Calheiros, por vendas de bois “fantasmas” com apresentação de notas frias, não passará de mais uma “perseguição” de Roberto Gurgel, inimigo declarado das principais lideranças petistas.
Então, dá saudades de uma liderança como a do saudoso Dr. Ulysses Guimarães, pois nossos políticos teimam em não escutar a “voz rouca das ruas”.