sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Senhor Mr. Azar


Pode até parecer que é da imaginação o que ora conto. De antemão, então, vou logo avisando: é trágico, mas tudo é pura verdade. Sei que seria melhor que fosse apenas cômico. Mas, não! Que me permita Nelson Rodrigues: “A vida tem dessas coisas”.
O caso é que o Senhor Mr. Azar sempre falou de voz grossa, que jamais aceitaria o mando de um patrão e ser empregado. Decididamente, diz que não nasceu para ser mandado. Assim, não deixa dúvida a seus interlocutores sobre sua determinação e a força do seu caráter.
Creio, firmemente, sem qualquer vacilação, que Zeca Baleiro fez a canção “Eu despedi o meu patrão” dedicada a ele. Pode até ter usado da telepatia, mas foi tudo certinho, a começar da primeira estrofe: “Eu despedi o meu patrão/ Desde meu primeiro emprego/ Trabalho eu não quero não/ Eu pago pelo meu sossego...” É o próprio Senhor Mr. Azar falando, desde o início ao fim da letra.
Despedido o patrão e escusado emprego, restou-lhe, então, o trabalho autônomo para sobrevivência. Daí a realização de pequenos biscates e a catação de ferro-velho, quando a coisa anda apertada. 
Nessas idas e vindas, Senhor Mr. Azar conseguiu um trabalho de colar painel de outdoor. Foi quando lá em Marataízes, depois de estar na escada removendo o painel velho com a espátula, que ele se viu traído por uma rajada de vento. Foi tão forte que o derrubou com a escada no chão e fez soltar-se da estrutura uma das peças de madeira, que lhe acertou a cabeça. Foram dezenas de pontos, com direito a Raio X, tomografia  e observação de dias no hospital.
Em outra vez foi refazer uma cerca de madeira em uma fazenda, que separava o sítio das galinhas da área de pastagem. Lembro-me perfeitamente dele narrando: - quando olhei o galo, o galo já estava olhando para mim. A partir daí, disse ele que começaram as esporadas, por todos os lados do corpo; que corria e o galo pulava... que pulava e o galo esporava... que voltava e o galo em cima... que gritava e o galo não parava... que, machucado, conseguiu fugir, mas deixou a cerca como havia encontrado.
Também teve um domingo, quando na minha casa chegou o Senhor Mr. Azar com a esposa, querendo solução para uma mordida de cachorro. Tinha sido na parte traseira, do lado direito da região do assento. O cachorro não era vacinado; precisava tomar antirrábica. Na época, era eu secretário municipal e o Centro de Saúde estava fechado.
Mas, para ele, já não tinha valido a pena a caixa d’água da casa do cachorro bravo, pois não houve dinheiro e saiu quase dilacerado. Por isto, lembro que falava: - com patrão, galo e cachorro bravo, eu não quero nada!
Depois teve a história da mão infeccionada - já estava quase sem movimentos, e precisava de assistência médica urgente. Felizmente, conseguimos solução, inclusive com correção plástica.
(Para os curiosos, informo que foi catando ferro velho pelas ruas da nossa cidade).
Há tempo não vejo o Senhor Mr. Azar, mas há dias minha esposa o viu vendendo bolsinhas em uma banca de camelô. Então, aqui comigo, penso e desejo que dessa vez ele tenha mais sorte nessa sua empreitada.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Carnaval – a festa do Momo

O Carnaval chegou ao Brasil com os primeiros colonos portugueses. Entretanto, foi no século V que a Igreja Católica passou a comemorar a data como um “adeus à carne”, que iniciava o período do ano lunar do Cristianismo. No século XI, durante a Idade Média, o Carnaval já era comemorado em toda Europa de diversas formas, para marcar a chegada da Quaresma.
Em Portugal, o Carnaval recebeu o nome de "Entrudo", justamente por ser a entrada da Quaresma, que se inicia na Quarta-Feira de Cinzas e termina na Sexta-Feira Santa. Era um dia de festa, de brincadeira e de pregar peças.
Durante o período colonial brasileiro o Carnaval foi comemorado de forma bem similar à Portugal. O nome “Entrudo” foi inclusive mantido. Porém, depois da segunda metade do século XVIII o Entrudo passou a sofrer grande interveniência da cultura africana. Nessa época, por motivos religiosos, os escravos também eram liberados para comemorar a data. Assim, os hábitos dos escravos, tais como as danças e os cânticos, foram paulatinamente incorporando à cultura do colonizador e a comemoração do Entrudo foi se modificando.
Os entrudos de rua eram muitas vezes violentos e assustadores, vistos como verdadeiras “selvagerias” pela forma das brincadeiras: os escravos, com rostos pintados de branco, e os brancos pobres, com rostos pintados de preto, jogavam entre eles e nos transeuntes água, tinta, farinha e até os excrementos que eram retirados pelos escravos das casas.
Há relatos de que as principais ruas da cidade do Rio de Janeiro ficavam enlameadas e com imenso mau cheiro, por toda sujeira espalhada. Soma-se a isto o próprio descuido com a cidade, bem como os hábitos rudimentares de higiene e de etiqueta dos habitantes da cidade, que deixavam impressões deveras muito ruim aos visitantes e viajantes que por aqui passavam.
Havia também o entrudo familiar, que era a tradição de preparar e jogar uns nos outros bolas de cera, com água perfumada em seu interior, chamadas de limão ou laranja de cheiro, dependendo da cor.
As fantasias só foram introduzidas pelas classes mais abastardas no final do século XIX, bastante tempo depois da nossa independência. Elas eram inspiradas no Carnaval parisiense - produto da sociedade vitoriana, que moldou o Carnaval no mundo. Surge daí os bailes à fantasia e os desfiles em carruagens pela cidade, que, posteriormente, deram origem às grandes sociedades (desfiles de fantasias organizadas em grandes carros enfeitados).
O Carnaval popular também foi se modernizando, inclusive pela necessidade de conter os excessos do Entrudo. E, de região para região, foi adquirindo feições próprias, dando origem a diversas formas de manifestações, que se misturaram ao folclore de raízes africanas. Vem daí o frevo, a congada, o maracatu, a farra do boi, o bloco afro, a escolas de samba, etc... 
O Rei Momo surgiu em 1933, quando o cronista Edgar Pilar Drumond, junto a outros jornalistas de “A Noite”, encomendou ao escultor Hipólito Colombo um boneco de papelão, para a brincadeira do Carnaval. Um ano depois, o mesmo grupo elegeu o cronista Moraes Cardoso, por suas peculiaridades morais e características físicas - alegre, falante, gordo e glutão – que se juntou ao boneco como Reis Momos do Carnaval.
Assim, ano a ano o Carnaval vai evoluindo e se modificando. Então, que nessa evolução promova no futuro um Carnaval com as cidades mais cheirosas e mais limpas; que a violência de todas as formas também seja contida, em favor da alegria dos foliões e do Momo. Assim, certamente teremos um carnaval muito mais divertido e humanizado.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

“O tempo é o Senhor da razão”

A privatização - através do regime de concessão - dos aeroportos de Brasília, Campinas e Guarulhos, três dos mais importes aeroportos do Brasil, foi muito bem sucedida. Primeiro, pelo valor alcançado: R$ 24,5 bilhões – 348% acima do preço mínimo; segundo, porque a reação contrária dos sindicatos e da CUT, desta vez foi mais contida, mais civilizada, sem quebra-quebras e badernas de rua, como no passado, quando o PT era ainda oposição.
Esse passo do governo do PT, não obstante às contradições com as ideologias do passado, vem de encontro aos interesses do Brasil. É urgente a necessidade de modernização e melhoria da infraestrutura, não só para o crescimento do país, mas também porque estamos às vésperas de uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, eventos globais, quando o Brasil se mostrará ao mundo.
No modelo adotado pelo governo, a Infraero permanecerá como sócia do negócio, com 49% dos lucros. Contudo, após o período de transição, que poderá ser de um ano, a gestão será da concessionária. Não se justifica, portanto, a permanência da Infraero, pois essa parte do lucro poderia ir direto para o caixa do governo, para aplicar em outras obras necessárias. A permanência da Infraero, neste caso, é preocupante, pois pode estar vinculada a manutenção de cargos e empreguismos.
Outra preocupação é a grande participação dos fundos de pensão das estatais, particularmente no aeroporto de Guarulhos, que poderá comprometer a eficiência de gestão.
Nos últimos anos, assistimos o Tribunal de Contas de União e a Controladoria Geral paralisarem importantes obras da infraestrutura, inclusive da Infraero, por licitações viciadas, superfaturamento de preços e outras mazelas. Simultaneamente, vimos o sucateamento dos principais aeroportos brasileiros e a construções das famosas “puxadinhas”, numa demonstração inequívoca de ineficiência.
Fica evidente que a administração dos grandes aeroportos por empresa pública é um modelo esgotado. Assim, a política de concessão poderá oferecer aos usuários e ao governo muitas vantagens, de modo que não é oportuno chamar as recentes privatizações, realizadas pelo governo do PT, de “PRIVATARIA PETISTA”. Este tipo de chavão não condiz com uma política de grandeza.
Agora, porém, devemos aplaudir as privatizações do PT, como também o entusiasmo e a alegria da presidente Dilma Rousseff diante do resultado do leilão. Vale a lembrança que não há demérito algum na mudança de posição da presidente e do governo. Nosso país precisa se modernizar; não é mais tempo da pedra lascada e das cavernas.
A própria presidente Dilma Rousseff teve a grandeza de reconhecer recentemente a importância do governo de Fernando Henrique Cardoso para o êxito do Brasil de hoje. Não foi a toa que o economista Murilo Portugal foi mantido por Antônio Palocci no Ministério da Fazenda e Henrique Meireles – eleito naquela ocasião deputado federal pelo PSDB por Goiás – escolhido para presidir o Banco Central do Brasil, durante o governo do ex-presidente Lula da Silva. 
O sucesso da economia de hoje deve-se a decisões do passado. Valeu ao PT mudar a sua bandeira econômica. Nada como o tempo: O tempo é o Senhor da razão.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O DNA é o mesmo

Diante da popularidade do então presidente Lula da Silva, principalmente após o segundo mandato, houve uma debandada de partidos e políticos da oposição para o governo. A popularidade de Lula da Silva funcionou como osmose, solvendo o fisiologismo desde a arcaica e conservadora direita à vislumbrada esquerda, todos ansiosos por morder uma fatia do poder, independente de idealismo ou da bandeira partidária.  
O governo “lulopetista”, por sua vez, não teve qualquer dificuldade em absolver essa tropa fisiológica: criou novos cargos em secretarias, diretorias e ministérios, fazendo um verdadeiro balcão de negócios. A prioridade foi construir uma ampla maioria, com intuito de inibir a oposição, incômoda, conforme atuação durante a CPI do MENSALÃO do PT. 
Com absoluta maioria durante a eleição da presidente Dilma Rousseff, Lula da Silva não mediu esforços para derrotar nas urnas seus adversários mais ferrenhos. Assim, não teve constrangimento para pedir votos em toda federação para seus aliados. Chegou mesmo, em alguns estados com eleitorado cativo, a dizer para que não votassem nesse ou naquele adversário, no mesmo tom de quando ainda não era governo. Fez o que pôde para calar a voz de seus desafetos.
O resultado das urnas foi uma oposição esfrangalhada - no Senado Federal e na Câmara dos Deputados o percentual de parlamentares da oposição não chega hoje aos 18%.
Como conseqüências deste processo, temos agora uma democracia empobrecida, carente de maiores valores: os partidos políticos parecem mais com aglomerado de gente sem ideologia; os projetos do governo – sempre enlatados em medidas provisórias - são aprovados sem discussões e questionamentos; o debate político deu lugar à troca de favores. E, no parlamento, blinda-se o desperdício e a corrupção, em detrimento da fiscalização e do bom uso dos recursos públicos.
Diante deste quadro, não se poderia esperar nada mais que a cadeia de escândalos que marcou o primeiro ano do governo de Dilma Rousseff, e que vem se prolonga ainda neste começo de ano - agora com os malfeitos dos ministérios da Integração e das Cidades, lotes políticos do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e do Partido Progressista (PP) no governo, entre outros...
É bom lembrar que todos os escândalos do governo Dilma Rousseff só vieram a público por divulgação da imprensa. A mesma imprensa que hoje é um pilar importante para a democracia e que o “lulopetismo” chama de “imprensa golpista” - jargão nos moldes de “herança maldita”, utilizado na feitura de seu marketing político.
A presidente Dilma Rousseff tomou posição sim, mas somente após esgotada toda credibilidade para que os denunciados permanecessem no cargo. Ministros incompetentes, que não seriam bons secretários em prefeituras de interior, tal como Orlando Silva (PCdoB) e Carlos Lupi (PDT), tiveram despedidas aclamadas, inclusive com os aplausos da presidente.
Entretanto, depois de tantos malfeitos, esses ministros deveriam ter saído de cabeça baixa, pelas portas dos fundos do Palácio do Planalto.
Agora na visita a Cuba, nesta semana, a presidente Dilma sai criticada por não abordar a questão dos direitos humanos. Não há dúvida de que ela deu um novo rumo na política externa desastrosa de seu antecessor. Porém, no fundo no fundo é visível que o DNA é o mesmo...

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A galinha também pode cantar sem colocar ovo!

A difusão de que a economia do Brasil poderá alcançar a 6ª posição do mundo, superando a da Inglaterra, ofuscou outras notícias importantes na semana. Entre elas a do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano, o Pnud, que apontou em 2011 um crescimento mais lento dos nossos indicadores de Desenvolvimento Humano; subimos apenas da 85ª posição, para a 84ª, entre a avaliação com outras 186 nações.
O fraco aumento no indicador de desenvolvimento humano do Brasil pelo Pnud - de 0,715 para 0,718 - deveu-se à maior expectativa de vida, uma vez que em 2010 era de 73,1 anos, e em 2011 subiu para 73,5 anos. Neste mesmo período não evoluímos nada em educação, já que a média de anos de estudo do brasileiro permaneceu paralisada em 7,2 anos. No entanto, por estes indicadores o Brasil continua no segundo grupo, entre os países com desenvolvimento humano elevado.
Na América Latina somente dois países estão situados no primeiro grupo, que agrega os países com desenvolvimento humano muito elevado. São eles: o Chile, na 44ª posição, e a Argentina, na 45ª posição. No nosso grupo, perdemos ainda para 13 países da América Latina, entre eles o Uruguai (48ª posição), Cuba (51ª posição), México (57ª posição), Venezuela (73ª posição) e Jamaica (79ª posição).
O principal fator que tem contribuído para que o Brasil permaneça quase estagnado na questão do desenvolvimento humano é a educação. Sem educação adequada, com qualidade, limitamos a inclusão social de milhões de brasileiros, comprometemos a distribuição da renda e inibimos o crescimento do nosso PIB.
Pode-se também associar a melhoria da educação com a promoção da cultura e do empreendedorismo, com maior efetividade no combate à corrupção e com a qualidade da utilização dos recursos públicos.
Quanto à 6ª posição de maior economia do mundo, creio não merecer maior alarmismo. Se esta posição vier a ser confirmada será muito mais pela decadência econômica de outros países, devido à intensidade da crise mundial, e pela valorização da nossa moeda e das nossas commodities no mercado externo. Não podemos nos esquecer que o agronegócio vem se expandindo no Brasil há mais de 20 anos, muito mais por iniciativa dos empresários que dos governos.
Outro ponto que não pode ser dissociado desta questão é que a posição entre as maiores economias do mundo não redime nosso país de uma das piores posições, quando se trata da desigualdade e da distribuição de renda. Pelos dados da ONU, quando se considera o coeficiente de GINI, entre 187 nações estamos melhores apenas que o Haiti, Colômbia, Bolívia, África do Sul, Angola, Honduras e Comoros.
Então, para 2012 vale continuarmos sempre atentos, para não nos iludirmos que pagamos nossa dívida externa, que já somos um país desenvolvido, com elevados níveis nos indicadores sociais e que, por fim, não temos problemas que comprometam nosso futuro.
Finalmente, desejo a todos os leitores um excelente e profícuo ano de 2012, com muita saúde. Aproveito também para comunicar que o mês de janeiro será de descanso desta coluna. Mas, se DEUS quiser, estaremos de volta em fevereiro do próximo ano. Até lá!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O que vai por detrás dos panos?

As privatizações realizadas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) contribuíram efetivamente para estabilidade da economia brasileira, haja vista que possibilitou amortecer a nossa dívida interna e diminuir um pouco os dispêndios com juros. Também eliminou o empreguismo, que só beneficiava os apadrinhados políticos, permitindo uma maior eficiência das empresas privatizadas.
Um bom exemplo de sucesso foi o setor de telefonia. Uma linha de telefone fixo, além de escassa, custava uma verdadeira fortuna; sua locação chegava a um salário mínimo por mês em muitas cidades. Poucos também tinham acesso ao celular. Com a privatização e a melhoria da tecnologia, o celular se tornou um produto popular, acessível a todas as classes.
Outro exemplo é a Companhia Vale do Rio Doce, que em pouco tempo depois de privatizada transformou-se em uma das maiores mineradoras do mundo. Atualmente, a Vale é uma das empresas que mais recolhem tributos aos cofres do governo; que mais geram empregos de qualidade no Brasil; que contribuem com o equilíbrio da balança comercial do país, pela expressividade de suas exportações, sem deixar de ser uma empresa brasileira.
Poderíamos citar ainda as transformações das empresas siderúrgicas, tal como da velha Companhia Siderúrgica Nacional – CSN; de distribuidoras e geradoras de energia elétrica e de muitas outras empresas, que se tornaram muito mais eficientes e produtivas, após passarem para o setor privado.
É fato que o governo sempre administrou muito mal essas empresas, ficando inclusive obrigado a realizar subsídios para manutenção de muitas delas, quer pela inoperância ou pelo próprio sucateamento, como foi o caso da Rede Ferroviária Federal.
No entanto, todo o processo de privatização do período de FHC, embora excelente para estabilização da economia do Brasil, conforme se provou mais tarde, foi de dificílima execução, pela resistência das Centrais Sindicais - principalmente da CUT - e dos partidos de esquerda, como o Partido Comunista e seu análogo PCdoB e o PT, com suas correntes mais radicais.
Essa resistência foi tão pesada que disseminou badernas nas ruas, inclusive com quebra-quebras, dilapidação de patrimônios públicos e impedimento do direito de ir e vir dos cidadãos.  Logicamente, tudo em função da manutenção do empreguismo e de interesses menores diante da grandeza do Brasil.
Contudo, somente agora, depois de nove anos de governo do PT será aberta uma Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI, para investigar o processo de privatização.  A iniciativa foi do deputado Protógenes Queiroz – PCdoB/SP, que diz basear-se em denúncias do livro “A privataria tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Junior.
Estranhamente, o autor do livro esteve envolvido em escândalo de violação de sigilo fiscal de pessoas ligadas ao PSDB, durante as eleições do ano passado.
Este fato se dá após a demissão sucessiva de seis ministros de Estado, por gravíssimas suspeitas e evidências de malfeitos, tais como desvios de dinheiro público através de ONG’s, de superfaturamento de obras, de corrupção generalizada (e profissionalizada), bem como de outros atos - todos denunciados pela imprensa e que mereceriam ser investigados, inclusive através de CPI.
Temos ainda as “consultorias” de Fernando Pimentel - ministro petista do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, blindado pelo governo -,  que até agora não apresentou explicações convincentes; somente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais recebeu R$ 1 milhão.
Então, como os leitores desta coluna são pessoas informadas e inteligentes, não façamos qualquer conjectura do fato, mas apenas uma pergunta, para que possam chegar às suas próprias conclusões: O que vai por detrás dos panos?
Embora tudo isto, vale um Feliz Natal aos leitores.




sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O escravismo no Brasil Colônia

Segundo Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), um dos mais importantes estudiosos da escravidão do africano no nosso país, “é difícil precisar a data que a escravidão (do negro) ocorreu no Brasil”, mas sabe-se que ela “é contemporânea a sua colonização”. Contudo, o mais provável é que os primeiros negros africanos escravos aportaram aqui no ano de 1549, por ocasião da instalação do primeiro governo geral.
Nossos colonizadores já conheciam a rentabilidade do trabalho do africano e suas habilidades na cadeia de produção do açúcar e da criação de gado, pela experiência na colonização das ilhas do Atlântico de Açores e da Madeira, iniciada em meados do século XV. Também já monopolizavam o comércio negreiro, com o domínio do valor mercantil do africano, cujo custo de aquisição correspondia à produção de treze a dezesseis meses de trabalho, de acordo com estudos do historiador americano Stuart Schwartz.
A colonização do território americano, consecutivamente, constituiu parte da estratégia portuguesa para expansão do comércio, conjugada com objetivos religiosos de ampliar a cristandade, uma vez que o estado e a religião se fundiam. Era a igreja, inclusive, que legitimava o cativeiro, imperando o princípio de que era preferível ao africano a escravização, mediante a conversão e a concepção do batismo, ao paganismo que arrastava a alma à condenação ao inferno.
A maioria dos africanos escravizados eram homens, que pela capacidade de trabalho tinham maior valor. A procedência, das mais distintas regiões da África, de tribos e reinos diversos, com culturas próprias, algumas bem evoluídas, inclusive dominando a escrita. Muitos reinos mantinham estreita ligação com os comerciantes portugueses, efetuando o escambo do cativo por outras espécies de mercadorias, tais como armas de fogo, munição, aguardente, tecidos de algodão, farinha de mandioca, jóias de baixo valor e fumo, em um comércio triangular, que além das colônias portuguesas envolvia metrópoles européias. Daqui saía o açúcar, a cachaça, a farinha e o fumo; após meado do século XVII, o ouro e as pedras preciosas; ao final do período colonial, o café.
O cativo era comercializado, sobretudo, na costa ocidental da África, e transportado regularmente pelos comerciantes portugueses em embarcações chamadas de “tumbeiros” (de tumba). Nelson Câmara, em seu livro “Escravidão – Nunca Mais!”, descreve assim o tráfego negreiro: Levavam de presídios em presídios bandos de escravos, com os corpos nus e marcados a ferro e brasa, “carimbados” para o caso de eventual fuga; os ajuntavam pelo pescoço com a pesada cadeia, o libambo, em caso de rebeldia./Muitos desses miseráveis, famélicos e cansados, sucumbiam na dolorosa marcha.../No navio amontoavam-se no porão por volta de 400 ou 500 homens./...a luta era pelo ar, pelo espaço, pela alimentação que era nula e corrompida pelos dejetos, amontoados, uns sobre os outros, sem a luz solar, sem roupa e sem o menor conforto.
Os navios eram fétidos, sujos e totalmente insalubres. Cerca de 20% dos cativos não resistiam ao longo tempo de viagem (em torno de 3 meses), sujeita a calmarias e intempéries, e sucumbiam devido a doenças e ao banzo (tristeza extrema), quando não se jogavam ao mar no desespero, por ocasião do banho de sol no convés principal. Aqui, nas adversidades do trabalho compulsório, declinavam a taxa de mortalidade entre 5 e 8% ao ano. Segundo Boris Fausto “dados recentes revelam que a expectativa de vida de um escravo era de 18,3 anos”. Desta forma, a alta taxa de mortalidade e a baixa expectativa de vida também concorreram para o avultamento do tráfego negreiro.
Desde o início da colonização até a elevação do Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves, por D. João VI, em dezembro de 1815, o comércio transatlântico do africano mobilizou em torno de 65% do contingente total de 4,5 milhões dos escravos traficados até 1855, quando finalmente foi extinto. Em 1818 quase metade da população brasileira (3,6 milhões de pessoas) era de negros escravos e 15% entre pretos e pardos livres e libertos.
Se por um lado, a relação entre brancos e escravos caracterizava-se por um tratamento geralmente cruel e desumano, pela própria concepção de que o negro era apenas uma mercadoria, com valor apenas de trabalho, e sua posse significava prestígio social; por outro, implicou em interações culturais, em conjunto com o nativo da terra, “refazendo valores, recriando códigos de comportamento e crenças, sem falar na miscigenação étnica, outrora chamada de miscigenação racial”, conforme dizer do professor Ronaldo Vainfas.
Todavia, o modo de pensar e agir escravocrata penetrava e envolvia toda sociedade durante o período colonial. Hoje, contudo, muito daquele período ecoa no seio da nossa sociedade, apesar do tempo, e ainda se propaga nos preconceitos de cor e de raça, como também em determinadas relações de trabalho.