quinta-feira, 9 de abril de 2015

Falseando a realidade sombria

A energia elétrica no Brasil já acumula um aumento de 60,42% nos últimos 12 meses, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O principal fator desse acréscimo é a necessidade de utilização das usinas térmicas, devido à escassez de chuva nas regiões dos grandes reservatórios, o que tem afetado a geração de energia hidroelétrica, de custo muito mais baixo. E não há previsão para que essa situação seja normalizada, pelo menos a curto e médio prazo.
Também, segundo o IBGE, o aumento da energia elétrica é um dos principais componentes na elevação da inflação este ano.  Só no mês de março este item contribuiu com 53,79% no aumento do IPCA. Isto elevou a inflação nos últimos 12 meses para 8,13% - maior índice nos últimos 20 anos para o mês de março. A meta central da inflação fixada pelo próprio governo é de 4,5% ao ano. Portanto, a inflação encontra-se muito acima da meta, ocasionando aumento de preços em cadeia no conjunto da economia.
É sempre bom recordar, que na pré-campanha à presidência da República a então candidata-presidente Dilma Rousseff (PT-RGS) anunciou em cadeia nacional de rádio e televisão a redução no valor da energia elétrica em 18% para as residências e 32% para as indústrias. Usando o teleprompter e perfeitamente maquiada pelo marketing político, a presidente-candidata enfatizou em seu pronunciamento à nação, que:
O Brasil vai ter energia cada vez melhor e mais barata. Isso significa que o Brasil tem e terá energia mais que suficiente para o presente e futuro, sem nenhum risco de racionamento ou qualquer tipo de estrangulamento no curto, no médio ou no longo prazo.
Então, para completar o misancene, ainda afirmou que o Brasil vive uma situação segura e que o nosso macro sistema de geração e distribuição de energia é um dos mais seguros do mundo. Claro que não faltaram críticas aos pessimistas, aos que são do contra, pois pelas palavras pré-eleitorais da presidente, o Brasil está cada vez maior e imune a ser atingido por previsões alarmistas.
Passadas as eleições, entretanto, a realidade agora é sombria. Inflação alta, contas públicas descontroladas, aumentos de impostos e dos juros, economia em recessão e desemprego. Enquanto o mundo crescia e os preços das nossas commodities subiam impulsionados pelo consumo da China, tudo era motivo para comemorações e discursos ufanistas. Mas, na escuridão, as estatais e os ministérios eram dilapidados, de forma bem similar ao que tem demonstrado a operação Lava-Jato na Petrobras.
O dinheiro fácil entrava e saía pelos ralos da corrupção e dos desperdícios, sem contar o aparelhamento do Estado e das estatais, com cargos e mais cargos e ainda mais ministérios.  Para piorar a meritocracia foi colocada de lado, em favor do compadrio e do fisiologismo, tão fortes que abarcaram as mais heterogêneas correntes políticas, aniquilando inclusive a oposição democrática. Por isto, agora as famílias e as empresas fazem o pagamento da conta.
O aumento estratosférico da energia elétrica no Brasil sintetiza a dimensão da crise econômica. Agora resta-nos concordar com diversos especialistas, que dão como certo que teremos uma nova década perdida, nos mesmos moldes que nos anos oitenta. A previsão de crescimento do Brasil para esta década já é muito menor que a média estimada para os nossos vizinhos e o mundo.

E não podemos culpar a crise externa por nossos fracassos se não fizemos o dever de casa. A economia global dá fortes sinais de recuperação e de um novo ciclo de crescimento, enquanto o Brasil caminha em sentido inverso. Se não aproveitamos as oportunidades passadas não devemos culpar os outros, senão à nossa própria incompetência. Isto tem nome e sobrenome, como também tem um criador e a sua criatura.