quinta-feira, 14 de maio de 2015

Zombando da falência política

O show desta semana na política foi protagonizado pela doleira paulista Nelma Kodama, durante interrogatórios da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras, realizados em Curitiba – PR. A doleira foi condenada a 18 anos de reclusão por 91 crimes de evasão de divisas e corrupção ativa na Operação Lava-Jato, embora com a redução da pena pela delação premiada. Sua prisão, pela Polícia Federal (PF), ocorreu no Aeroporto Internacional de Guarulhos, após a tentativa de fuga para a Itália com 200 mil euros na calcinha.
Segundo sentença do Juiz Sérgio Moro, os crimes cometidos por Neuma envolveram sofisticada engenharia financeira, com abertura de empresa de fachada no Brasil e em nome de pessoa interposta e com a abertura e utilização de contas em nome de off-shores no exterior, estas também postas em nome de terceiros. O emprego de esquemas sofisticados de evasão... acessíveis apenas a criminosos de grande sofisticação, merece especial reprovação.
A doleira é velha conhecida da PF. Em 2005, durante a CPI dos Correios, Neuma foi apontada como operadora do PT no mercado de câmbio de Santo André – SP, por ocasião da gestão do prefeito Celso Daniel, assassinado em 2002 em circunstâncias até hoje não esclarecidas. Na Operação Lava-Jato, a PF apurou que Neuma movimentou ilegalmente mais de US$ 5,2 milhões, apenas no período entre maio e novembro de 2013. Portanto, trata-se de uma operadora contumaz no meio da corrupção.
No interrogatório de Curitiba a doleira extrapolou ao exacerbar-se na demonstração de seus “dotes artísticos”, talvez para confirmar as razões de ser conhecida no mercado financeiro pelo codinome “Greta Garbo”. Tudo até poderia ser cômico ou não brincadeiras temperadas com ironia, se não tivesse Neuma na condição de ré e diante de uma CPI. Os poderes investidos de uma CPI são inerentes às instituições Republicanas, que jamais devem prescindir do respeito, para serem sempre respeitadas em qualquer circunstância.
Entretanto, não obstante às esparsas intervenções do presidente da CPI, o deputado Hugo Motta (PMDB-PB), a favor da manutenção do decoro, não faltou risadas da maioria dos deputados, o que deixou Neuma à vontade para fazer suas gracinhas. Ficou patente, portanto, a falta de preparo dessas “Vossas Excelências” para o cumprimento de suas funções. Lamentável!
É fato que a doleira Neuma fez o que quis: Levantou-se e viro-se para a platéia mostrando os bolsos de trás da calça jeans que portava, dizendo que levara ali os 200 mil euros ao ser presa em Guarulhos; cantarolou trecho da canção “Amada amante”, de Roberto Carlos, ao explicar sua relação amorosa com o também doleiro Alberto Youssef. Por fim, diz-se injustiçada e ainda que o Brasil é movido à corrupção.
Claro que não se pode generalizar que a corrupção tomou conta do Brasil. Há inúmeros exemplos de seriedade em todos os segmentos de nossa vida econômica e social, ou mesmo política. Mas, particularizando a política, infelizmente, parece que a corrupção encontra-se agora impregnada. Aliás, esta é uma das fortes razões para que a reputação dos políticos tenha chegado ao fundo do poço, bem como da necessidade de mudanças para que o Brasil seja passado a limpo.

Faz-se urgente, portanto, uma profunda reforma política, de modo a fortalecer a nossa jovem democracia com valores mais nobres, voltados ao bem estar coletivo. Mas, nada disso será alcançada sem a mobilização da sociedade, inclusive para evitar a continuidade do aparelhamento do Estado, da corrupção e da incompetência, da forma como estão instaladas. Já não podemos aceitar o achincalhamento do Estado.