sexta-feira, 6 de março de 2015

Feitiço contra os feiticeiros

Dizem que em casa que não tem pão todo mundo tem razão. Daí a crise política que se abateu sobre o país, erigida após o desdobramento da operação Lava-Jato - o maior escândalo de corrupção da nossa história e quiçá dos maiores do mundo - e da crise econômica, que se mostrou infinitamente mais robusta aos “desavisados”, após a presidente Dilma Rousseff (PT-RGS) assumir o segundo mandato. O fato é que muitas torneiras tiveram que ser imperativamente fechadas.
O primeiro sintoma que veio à tona, então, foi o descontentamento do PMDB. Os expoentes peemedebistas sempre souberam do projeto de hegemonia e de perpetuação no poder do PT, em curso desde a ascensão de Lula da Silva à presidência da República, em 2003. Enquanto o alvo da fúria petista era desgastar o mais que possível a imagem do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e aniquilar a oposição, o PMDB ia muito bem, deleitando em seu camarote. Calo nos pés dos outros não dói!
Durante o primeiro tempo da partida jorrava dinheiro no governo. O mundo crescia como nunca, impulsionado pela China, e os preços das nossas commodities chegaram às nuvens em céu de brigadeiro. A arrecadação crescia a cada mês; recorde sobre recorde. Assim, o apoio majoritário do PMDB tornou-se quase irrestrito. Em troca, bons ministérios e cargos nos demais escalões e nas empresas públicas.
Nessa etapa da partida não faltaram aplausos de peemedebistas, junto aos demais governistas, para as barbas do ex-presidente Lula da Silva e os atos mais esdrúxulos, com objetivo nítido de manter o governo na mídia.
Agora, no segundo tempo, após a posse da presidente Dilma Rousseff (PT-RGS) em seu segundo mandato, o PMDB sentiu na carne que a situação já não era a mesma. Primeiro, porque a presidente se fechou no chamado “núcleo duro”, integrado por ministros da sua confiança, exclusivamente petistas. Segundo, porque os ministérios que lhe foram conferidos, independente do tamanho da bancada, têm muito menos peso político e recursos financeiros que nos governos anteriores.
Além do mais, o PMDB sentiu o risco de ser alijado do poder, e conservou a mágoa da estratégia montada pelo ministro da Casa Civil, Aloísio Mercadante (PT-SP), de enfraquecer o partido, usando o atual ministro das Cidades, Gilberto Kassab (PSD-SP) - tido como “prostituta do Planalto” -, para criar uma nova legenda, o Partido Liberal (PL) que fragmentaria o PMDB e a oposição.  
 Para azedar ainda mais as relações, com o desenrolar da operação Lava-Jato e o pedido de abertura de inquérito ao Supremo Tribunal Federal (STF), pela Procuradoria Geral da República (PGR), contra os políticos com mandato, o PMDB se viu empurrado para o topo da crise. O presidente do Senado Federal, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara dos Deputados (PMDB-RJ), Eduardo Cunha, julgavam-se imunes ao processo.
Ambos os presidentes daquelas casas legislativas sentiram-se jogados na crista do furacão pelo PT. Entretanto, a lista do procurador Geral de República, Rodrigo Janot, é extensa. Quase a totalidade dos nomes deve ser de parlamentares do PT e do PMDB, na sua maioria previsível, pela própria atuação na defesa do governo, tanto no período do ex-presidente Lula da Silva como no de Dilma Rousseff.

Sabe-se que nessa briga não tem santo. Contudo, os nervos vão à flor da pele, conforme se viu na última quinta-feira, durante a abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras. Observa-se, portanto, que o PT começa a receber o troco por tudo aquilo que tem plantado em sua estadia desvairada no poder.