sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Da festança ao pesadelo


No dia 2 de outubro de 2009, na sede do Comitê Olímpico Internacional (COI) em Copenhague –Dinamarca, na cerimônia de escolha da cidade que sediaria as Olimpíadas de Verão e os Jogos Paralímpicos de 2016, autoridades brasileiras de alta patente comemoraram efusivamente quando Thomas Bach anunciou a escolha do Rio de Janeiro. Em um instante a “vitória” transformou-se em festa, com abraços, pulos e gritarias, como se estivéssemos resolvendo os problemas do mundo.
Naquela ocasião, o governo do ex-presidente Lula da Silva (PT-SP) já vislumbrava outros dois megaeventos: a XXVIII Jornada Mundial da Juventude, realizada ao final de julho de 2013, e a Copa do Mundo FIFA de 2014.  Esta última com muito mais encargos, que deveriam servir como legado à população, tais como melhoria dos aeroportos, da mobilidade urbana, da segurança pública, ... Os 12 estádios a construir ou reformar, para cada uma das sedes escolhidas, obedeceriam ao padrão FIFA.
Nenhum governo racional, competente, se atreveria a assumir compromissos de tais magnitudes em um intervalo de tempo tão curto. O do Brasil, no entanto, levado pelo delírio, ufanismo e crescimento na rabeira do mundo, na contramão, aceitou tais desafios. O resultado é que para trás ficaram inúmeros elefantes brancos, obras não concluídas e outras sequer iniciadas. Mas, ao custo de bilhões e bilhões de reais, realizou-se a festança, com superfaturamentos por todas as regiões do país.
A realidade, que é implacável, não suporta ofuscar-se pelos delírios midiáticos e populistas. Por isto, nunca tarda a chegar. Desta vez, chegou rápido! Logo depois da reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff, ao final de 2014. Naquele final de ano já não foi mais possível esconder da população a real situação da economia. A crise se aflorou tal como uma “marolinha”, pronta para formar o tsunami.
Hoje, todo o país vem sofrendo as conseqüências da falta de zelo de vários governos com a economia. A exceção se resume a alguns setores do funcionalismo público, que ainda são movidos pelo corporativismo e continuam a navegar em céu de brigadeiro. As empresas e os trabalhadores em geral, entretanto, são os mais afetados, o que tem repercutido diretamente nas receitas da União, dos estados e dos municípios. Somente o setor da indústria amargou uma queda de 19,1% nos últimos três anos, enquanto os indicadores oficiais apontam mais de 12,3 milhões de desempregados.
“Como nunca antes na história deste país”, vivenciamos uma crise dessa dimensão. Porém, na economia já se observa uma luz adiante, em razão dos ajustes que estão sendo realizados. Nesta hora há que separar o joio do trigo: os que trabalham em função dos acertos do país, daqueles que querem a manutenção dos privilégios.
Particularizando, no estado do Espírito Santo, que de norte a sul ora vivencia um verdadeiro caos na segurança pública, o setor da saúde não deixa de ser um exemplo, principalmente no que diz respeito aos hospitais filantrópicos. Estes não têm aumento há mais de 10 anos, mesmo assim continuam a atender à população, embora no início de 2015 tenham sofrido um corte de 20% em suas verbas.
Se a crise atual tem como raiz a prevalência dos interesses espúrios, mesquinhos, a saída está na reorganização do Estado, de modo a valorizar a res publica, em benefício de todos.