segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O "gênio" da corte.

Sinceramente, não sabemos o nome da síndrome. Também não sabemos se ela tem nome, ou mesmo se já foi estudada, pois nas questões do comportamento humano nosso conhecimento é insignificante, quase nulo. A única coisa de que podemos conjecturar, entretanto, é que em se tratando de síndrome deverá levar o nome de seu descobridor, da forma como as ciências costumam homenagear a quem se dedicou a determinado estudo.
Vejam que ele já foi chamado de “O Cara”. Consideram-no agora o “gênio” da corte. Ele mesmo passou a ter a certeza de que em oito anos tornou o Brasil “um país desenvolvido”, fazendo muito mais do que todos os outros governos, desde o tempo em que éramos colônia de Portugal à Nova República. Então, para comprovar que realmente é “O Cara”, vamos começar por suas origens, usando inclusive suas próprias palavras: “Eu sou filho de uma mãe que nasceu analfabeta”. Por seu ego, certamente gostaria que a sua mãe tivesse nascida aculturada, como também poliglota.
Aliás, a língua estrangeira é uma das suas atrações. Por isto, diz com toda firmeza que “gostaria de ter estudado latim, pois assim eu poderia me comunicar melhor com o povo da América Latina”. Infelizmente, ele não estudou latim, nem português, simplesmente porque nunca gastou de estudar, muito menos de leitura. No entanto, nada disso lhe faz falta, nem acarreta algum obstáculo, porque crê fielmente ter conhecimento de todos e de tudo. Tanto é assim, que fala com propriedade que “nos EUA até pobre fala inglês”.
Com sua sapiência nosso “gênio” envolveu quase toda nação brasileira. Sua popularidade inclusive tornou-se muitíssimo maior que a do palhaço Tiririca, eleito recentemente deputado federal com mais de um milhão e meio de votos. O sucesso, portanto, é inquestionável, pois como ele mesmo diz, “se não tivermos sucesso, corremos o risco de fracassarmos”. Realmente ele não corre o risco de fracassar, por considerar-se o próprio sucesso em pessoa.
Com essa síndrome, que não sabemos o nome, transformou-se em um exímio mestre, que após as aulas tem sempre a recompensa dos aplausos, seja onde estiver a plateia. Dificilmente encontraremos em nossa história outro igual! Fica aqui, somente como registro, que em uma de suas aulas mencionou que “o Brasil só não faz fronteira com o Chile, o Equador e a Bolívia”. Em outra, que “o holocausto foi um período obsceno na história da nossa nação, quero dizer na história deste século. Mas todos vivemos neste século. Eu não vivi neste século...”.
Além dos amplos poderes, da “genialidade” e da humildade que tem em reconhecer que “não sabia” disto ou da daquilo, quando o momento lhe convém, o nosso “gênio” da corte também tem se mostrado um competente “futurólogo”. Não é à toa que diz que “o futuro será melhor amanhã”, ou que “nós estamos preparados para qualquer imprevisto, que possa ocorrer ou não”.
Além de tudo é também um exímio revolucionário. Suas idéias são invariavelmente contra a “imprensa golpista” e as “zelites”, por serem sempre circulantes. Mas não no sentido de circulante, como o leitor pode pensar, em se tratando pensamento, da circulação sanguínea. Porém, no sentido exato da palavra, da forma de círculo, ou como ele diz: “Eu não mudei ideologicamente. A vida é que muda. A cabeça tem esse formato para as idéias poderem circular”.
Mas, deixando o pensamento circulante de lado, vamos à economia. E por que não lembrar a aula magna, quando deu ênfase que “a maioria das nossas importações vem de fora”! Como o leitor poderá testemunhar ele não tem dificuldades para abordar qualquer tema. Tudo que pronuncia tem “a palavra certa pra doutor não reclamar”, conforme o dizer do cantador nordestino Zé Ramalho, em sua música “Avôhai”.
Prova disso é quando fala de obras. Neste aspecto, pode até inaugurar uma mesma obra várias vezes, ou mesmo uma ainda não iniciada, mas nunca falta a palavra certa, conforme a seguinte explicação: “Não será por falta de lealdade aos princípios que não iremos cumprir. Se a gente não cumprir é porque teve fatores extraterrenos, que não permitiram que nós cumpríssemos”.
Nosso “gênio” trata com a mesma desenvoltura a filosofia e as ciências, sejam elas do campo social ou da natureza. Ao explicar o desequilíbrio climático, deu a seguinte luz aos cientistas: “Então essa questão de clima é delicada por quê? Porque o mundo é redondo. Se o mundo fosse quadrado ou retangular, e a gente soubesse que o nosso território está a 14 mil quilômetros de distância dos outros centros poluídos, ótimo, vai ficar só lá. Mas, como o mundo gira, e a gente passa lá em baixo onde está mais poluído, a responsabilidade é de todos”. Depois foi amplamente aplaudido...

“Como nunca na história deste país” observamos um “gênio” com inteligência tão grande. Esta é a marca que fica na nossa história com os aplausos e  a aprovação quase unânime do nosso povo. É o que termina e poderia se acabar, definitivamente, no curso desta semana. Mas, sobreviverá até quando?

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O que será que vem por aí?

O ministro da Fazenda, professor Guido Mantega, anunciou ao país que o próximo ano será de aperto, para viabilizar o equilíbrio das contas do governo e conter a inflação. Por isto, serão cortadas despesas em todos os ministérios, inclusive na Saúde, bem como em obras do PAC. Só estão garantidos, segundo Mantega, os recursos para o programa Bolsa Família.
Para quem acompanha a vida econômica e política do Brasil esse fato já era esperado. Há quinze dias, aqui mesmo nesta coluna, em artigo intitulado “Herança Bendita?”, relatamos com fatos e números, que a situação econômica a ser herdada pela presidente eleita, Dilma Rousseff, será muito pior do que a herança de Lula da Silva de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso.
O presidente Lula da Silva vendeu ao país a ilusão de que ele resolveu todos os nossos problemas. Dilma Rousseff, por sua vez, endossou tudo que fez seu criador, ao mostrar um Brasil às mil maravilhas durante toda campanha: Não haveria necessidade de cortes nos gastos do governo; não seria preciso mexer no PAC; tudo que foi feito estava devidamente "perfeito”. De errado, só a oposição democrática e a imprensa "maldita".
Mas agora, passada as eleições, chega a hora do Brasil Real. Aparece o peso da dívida pública, que vai fechar o ano em R$ 2,450 trilhões (mais que dobrou no governo Lula); começa a explodir o inchaço do consumo do governo, que saltou de 4,4% para 8,8% do PIB, o que é inviável para o equilíbrio das contas; a inflação mostra a sua cara, ascendente; o peso do real valorizado inibe as exportações e já aparece o desequilíbrio da balança comercial do Brasil, etc...
Com tudo isto, o crescimento acelerado para eleições ficará certamente insustentável nos próximos anos, e a “marolinha” mostrará, irremediavelmente, seus efeitos. Fala-se até no retorno da CPMF, que o país não aceita, pois não suporta mais o peso da carga tributária de 38% do PIB – a maior entre todos os países emergentes.
Outro fato que ainda é uma incógnita é se realmente teremos a presidente eleita como real presidente, ou se será Lula da Silva quem comandará o próximo mandato.
A impressão que ora fica é a de que o atual presidente é quem está montando o próximo ministério. Foram inúmeros anúncios de ministros, que por sua ótica “deveriam continuar”, e que agora sabe-se que continuaram no governo. Não se consegue ver a liberdade da presidente eleita em montar a sua equipe de forma Republicana e presidencialista.
Na última terça-feira, no Rio, o presidente Lula da Silva anunciou, nos seguintes termos, que: “Não acredito que a gente tenha de cortar nenhum centavo do PAC, mas temos que manter a inflação sob controle, a estabilidade econômica e nós precisamos manter dinheiro para investimentos”. Ainda afirmou que “se tiver que mexer em alguma coisa vai ser em custeio e não em obras de investimentos”.
Lula da Silva, assim, desautorizou o ministro Guido Mantega, que falava já como ministro da presidente eleita. Mas o presidente não se importa, pois como sua popularidade é relevante, acha que pode falar à vontade...
(De bom da fala do presidente no Rio, ficou a promessa de que "irá vetar a emenda dos royalties do pré - sal", que garante ao Espírito Santo a possibilidade de continuar crescendo nos próximos anos).
Outra incógnita, que faz quebrar a cabeça, é a reforma política anunciada pelo presidente para o próximo ano (diz que a "coordenará"). O que fará Lula da Silva como ex-presidente, sem mídia e sem mandato? Como poderá protagonizar essa reforma, tão almejada pela sociedade brasileira? Por isto, fica aqui mais esta pergunta: O que será que vem por aí?

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Herança Bendita?

Na última sexta-feira, a presidente eleita Dilma Roussef (PT-RS), falando em São Paulo para o seu partido, exaltou que receberá do governo de Lula da Silva uma “herança bendita”. É claro que ela não falaria de outro modo, pois, afinal, o presidente Lula da Silva, além de seu criador, foi o grande fiador de seu nome junto ao eleitorado.
Mas, na verdade, essa “herança bendita” nada tem de bendita, da forma como disse a presidente eleita. Quiçá seja ela a verdadeira herança maldita! A realidade é que o país que Dilma Rousseff assumirá é muitíssimo pior do que o herdado por Lula da Silva do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC).
Uma coisa é a propaganda de governo; outra coisa é a realidade fria dos fatos e dos números! Mas, nem tudo são flores, como os governos populistas sempre querem fazer que os seus “súditos” creiam. Eles podem enganar a maioria, por boa fé e falta de informação, mas a liberdade da democracia oferece a janela da verdade, que sempre prevalecerá mais cedo ou mais tarde.
Contudo, a situação atual da economia do nosso país - com exceção do nível das reservas, resultante dos preços favoráveis das nossas commodities no mercado externo, principalmente influenciado pelo consumo da China, e do emprego - não é nada confortável. Pelo contrário, está muito longe de ser essa “herança bendita”.
É oportuno fazer algumas comparações, que possibilitarão aos leitores uma análise entre as duas situações: quando Lula da Silva assumiu, e a herança que ele deixa para a sua sucessora. Resumidamente, apontamos os seguintes pontos:
- No final do governo de FHC a balança comercial brasileira consolidava um ciclo virtuoso, com o aumento das exportações, em função do câmbio flutuante e da valorização dos nossos produtos no mercado externo. A equipe econômica já minimizara o efeito Lula, que alvoroçara o mercado.
- Hoje, o real valorizado encarece os nossos produtos no mercado externo. Assim, o resultado da balança comercial brasileira é cada vez mais desfavorável; as exportações diminuem e as importações aumentam de maneira descontrolada. As nossas indústrias entraram em um processo de estagnação da produtividade.
- Com o desequilíbrio da balança comercial, passamos a depender ainda mais do capital externo para fechar as contas. Por isto, atualmente recebemos mais capital especulativo que no período anterior.
- Saímos de um sistema de controle de gastos, para o de gastança descontrolada, principalmente pelo aumento da máquina pública. São contratações desenfreadas de funcionários, aumento da burocracia de Estado e baixo nível de poupança para realização dos investimentos necessários.
- O consumo do governo saltou de 4,2% para 8,8% do PIB, enquanto os investimentos não passaram de 1,6%, também do PIB, mesmo com a injeção de recursos no BNDES, para financiamento das empresas.
- A carga tributária aumentou de 32% para 36% do PIB, para fazer frente ao aumento dos gastos do governo.
- Em 2002, a dívida externa era de UR$ 215 bilhões e a dívida bruta de R$ 1,1039 trilhão. Atualmente, a dívida externa é de US$ 254,1 bilhões e a dívida bruta estimada em R$ 2,450 trilhões, para final de dezembro de 2010.
- Em 2002, o Lucro dos bancos foi de R$ 32 bilhões; ao final de 2010 está projetado em aproximadamente R$ 167 bilhões. A concentração de renda no país não sofreu mudança significativa e mais da metade dos empregos ainda é gerada na economia informal.
Não falaremos aqui da política do “toma lá dá cá”, das 59% das residências sem esgoto, dos maiores juros do mundo, do assistencialismo compra-votos sem porta de saída, da falta de infraestrutura, da qualidade da educação, do retrocesso da saúde, da quebra dos valores éticos e de muitas e muitas outras coisas.

Talvez essa “herança bendita”, a que a presidenta eleita se referiu, não seja o Brasil real que ela assumirá no próximo dia primeiro de janeiro. Pode ser que seja a de um país imaginário, conforme propagado pelo presidente Lula da Silva - “como nunca se viu na história deste país”- que ela continuará a propagar nos próximos quatro anos de seu governo.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Descortinando o rio...

Há algum tempo, Jô Soares, em entrevista ao escritor cachoeirense Ricardo Marcondes, recordou que em viagem para Guarapari, resolveu entrar em Cachoeiro de Itapemirim para conhecer a cidade; depois, comentando essa visita com Rubem Braga, disse que “Cachoeiro de Itapemirim era uma cidade feia”, e que, então, Rubem respondeu: “- Jô, nenhuma cidade que tem um rio que a corta ao meio é uma cidade feia”.
Esta resposta de Rubem Braga ficou na minha memória. Nunca a esqueci! Guardo-a não só pela beleza da expressão, como também pela forma de sentir o sentimento de um poeta e sua maneira singular de ver a beleza nas coisas que lhe vão mostrando a vida. A partir daí, passei, então, a admirar ainda mais Rubem Braga, além do cronista, pela sensibilidade humana.
Agora, relembrando a repentina visita do Jô Soares a Cachoeiro, me vem à memória que ele talvez não tenha percebido o rio que banha a nossa aldeia, o nosso Itapemirim, – que me permita o leitor lembrar aqui Fernando Pessoa - e que, por isto, tenha sido infeliz na forma de ver a nossa cidade. Pode ser, também, que ele não estivesse em um bom dia...
Mas, acho mais plausível a primeira hipótese, pois há anos o Itapemirim vem sendo encoberto. São prédios e mais prédios escondendo as suas margens; outdoors colocados, indiscriminadamente, por todos os lados; caminhões de fretamento ao longo do pequeno trecho urbano ainda descoberto; matos e sujeira que encortinam a visão do leito, como na Volta do Caixão; são tantos os descasos acumulativos das autoridades e anos e anos de desleixo com o nosso rio.
Por isto, seriam boas e oportunas mais iniciativas, tais como a proibição de novas edificações às margens do rio, a desapropriação de terrenos ainda vagos, como os de perto do Liceu, e até mesmo a decretação de áreas de utilidade pública, para futuras desapropriações. Vale a pena pensar grande e pensar lá na frente. Pensar em ver o rio de volta, com suas belezas sendo colocadas para a apreciação de todos.

Outras iniciativas são de educação. É lamentável ver entulhos jogados às margens do rio e o descaso da própria população. Falta a alguns a sensibilidade para respeitar e preservar o que nos presenteou a natureza com que ela tem de mais lindo.
O mesmo acontece com relação aos outdoors e aos caminhões estacionados ao longo do rio; todos esses fatos têm a agravante da conivência do poder público.
Vale também lembrar, que no passado as construções eram feitas com as costas voltadas para o rio. A frente ficava para a rua, sem vistas, sujeita a barulhos e poluição. Mas a beleza deve ser vista de frente! O rio e as suas ilhas não podem ser colocados em segundo plano, nem as garças e os outros pássaros que fazem nele os seus habitats.
(Se eu tivesse uma casa às margens do rio, colocava a varanda em sua frente. Assim, poderia contemplar permanentemente a paisagem e observar os pássaros nas suas chegadas e partidas. Lá teria uma rede para as leituras e uma mesa com o notebook para a redação destes artigos, com todo sossego que isto me permitiria).
O rio Itapemirim tem que respirar a vida; por isto vibro com o trabalho de despoluição feito pela concessionária de serviços de água e de esgoto da nossa cidade – atualmente Foz do Brasil. Podemos, assim, observar que a qualidade da água está se recuperando.  Hoje temos menos poluição e mau cheiro. Falta é o replantio das matas ciliares.
Pelo amor a Cachoeiro e ao Itapemirim tenho certeza que Rubem Braga aprovaria as sugestões ora apresentadas. Também não tenho nenhuma dúvida que em nova visita a nossa cidade, Jô Soares a consideraria muito mais bela.
O rio Itapemirim não foi só da geração de ontem, como é da geração de hoje. Temos que cuidá-lo com muito esmero porque ele é também o rio de muitas e muitas gerações que virão pela frente.