sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Calando o que quer dizer o mercado

Diz a sabedoria popular que “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”. Foi assim mais uma vez no caso recente da analista de mercado do Banco Santander, que acabou demitida após alertas aos grandes correntistas daquela instituição financeira para os riscos da presidente Dilma Rousseff “se estabilizar ou voltar a subir nas pesquisas”. O argumento usado foi que “o câmbio voltaria a se desvalorizar, juros longos retomariam a alta e o índice da Bovespa cairia”. 

É patente que a analista demitida não disse nada de novo do que diz o mercado. Ele sempre é regulado pelas diretrizes e resultados da política econômica dos governos. O motivo da demissão, entretanto, é que o governo petista há tempo vem se sentido incomodado com as análises frias e cruas dos analistas, o que serve para demonstrar o seu perfil autoritário, como se o governo pudesse controlar os princípios que regem a movimentação do mercado.

Na última quarta-feira durante sabatina aos candidatos à presidência da República, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), a presidente Dilma Rousseff demonstrou mais uma vez esse perfil e sua aversão às críticas. Ela enfatizou que as “expectativas pessimistas bloqueiam soluções e realizações”. Porém, não são os analistas de mercados, ou a imprensa, os responsáveis pelos insucessos do governo, mas os próprios agentes econômicos, escolhidos diretamente pela presidente.

Lastimável, mas o governo petista sempre procura atribuir a culpa de qualquer insucesso ao passado, à oposição ou à imprensa. Jamais aceita que o resultado possa ser conseqüência de uma política errada. Não havendo uma reflexão para dentro e o reconhecimento do erro (ou da incompetência?) fica difícil encontrar uma porta de saída e a solução para correção de rumo dos problemas.

E na área econômica não são poucos os indicadores desfavoráveis, que depõem contra a eficiência do governo. É lógico que eles servem como parâmetros de influência nos rumos do mercado.

Nesta semana, o Tesouro Nacional informou que no mês de junho as contas do governo apresentaram os piores resultados, desde o ano 2000. O déficit primário (sem contar o pagamento de juros) ficou em R$ 1,95 bilhão. No primeiro semestre, o superávit primário foi de apenas R$ 17,24 bilhões, valor este muito aquém do suficiente a alcançar a meta prometida pelo próprio governo para 2014, fixada em R$ 99,0 bilhões, ou 1,9 % do Produto Interno Bruto (PIB).

Também influenciam o mercado a previsão pífia de crescimento do PIB, estimada em 0,9% para 2014; a chamada “contabilidade criativa”, utilizada pelo governo para fazer superávit primário e o fechamento das contas; o aumento da inflação, com tendência de crescimento em percentuais muito além do centro da meta; a contenção da inflação com o represamento dos preços da energia elétrica e dos combustíveis; a desorganização, com aumento acelerado dos gastos públicos, entre tantos outros fatores desfavoráveis ao governo.


No entanto, nada assusta mais ao PT e aos seus aliados do que a possibilidade de perder o poder. Por isto esta pressão sobre o mercado. Por isto a demissão da analista, que acabou sendo a culpada pelas previsões sombrias. Realmente, a corda só arrebenta do lado mais fraco...